Resumo do Projeto
Certa ocasião, ao considerar o teatro como um diálogo entre corpos, o dramaturgo alemão Heiner Müller recorreu a Friedrich Nietzsche e seu 'escrever com os pés' para relativizar a centralidade dada pelo teatro burguês ao texto escrito. Afinal, nas 'artes do corpo', a palavra deveria vir a reboque daquele, e não o contrário. Máxima essa que só foi colocada a partir da emergência do encenador no início do século XX. Naturalmente que a noção do dramaturgo como figura central dentro de uma montagem teatral permaneceu como hegemônica pelo menos até o final da década de 1960 quando a partir de então, e de modo mais sistemático, ranhuras puderam ser observadas naquilo que até então se constituía enquanto drama burguês. O próprio esgarçamento do conceito de texto, não mais restrito a aspectos eminentemente linguísticos terminou por contribuir para a ampliação do conceito de dramaturgia, entendido aqui menos como a composição de textos dramáticos e mais como uma proposição de forças dentro de um espetáculo ou obra. Indo ao encontro de Müller e de sua denúncia da 'prisão da significação', detecto em algumas das mais notáveis experiências cênicas dos últimos anos a premência das tensões corporais para além da reconhecível tensão dramática. Por sinal, é compreensível que tal resistência ao sentido termine por acarretar dificuldades de recepção, sobretudo em se tratando de trabalhos que independem de uma construção discursiva tradicional. Pretende-se aqui, portanto, investigar essas mudanças de ênfase, do corpo da escrita à escrita do corpo, e vice-versa, tendo como foco o diálogo entre o teatro e outras manifestações artísticas tais como a dança e o cinema.