Resumo do Projeto
O projeto tem como objetivo a realização de uma síntese da reflexão iniciada há alguns anos, que já gerou alguns frutos parciais, e que intenciono concluir na forma de um livro. Analisarei, no período de um século, os significados sociais e políticos da ordenação de descendentes de escravos africanos ao clero secular, na área do antigo bispado do Rio de Janeiro. A longa duração será importante no sentido de perceber transformações e avaliar continuidades e descontinuidades. Na primeira fase da pesquisa centrei-me na primeira metade do século XVIII, articulando uma análise que buscou correlacionar aspectos relativos à mobilidade social e o papel das políticas episcopais na construção de discursos de classificação social. Particularmente, na construção de um vocabulário social sobre a cor e sua interrelação com a escravidão tanto enquanto sistema político e social quanto em sua acepção ideológica compreendida à luz da teologia católica moderna. Sob o aspecto ideológico, analisou-se como a Igreja atuou na construção de hierarquias fundadas na naturalização das diferenças, mesclando a cultura política do antigo regime com as explicações sobre a escravidão entendida enquanto fator que imputava falta de qualidade aos africanos e seus descendentes – marca do trabalho manual - e enquanto marca do gentilismo e do pecado associados às origens religiosas desses grupos. O discurso em questão veio a fundamentar, no trâmite dos processos de habilitação ao clero secular, a chamada dispensa do “defeito da cor” que facultou a alguns descendentes de escravos africanos a entrada no corpo sacerdotal.
A continuidade aqui proposta visa observar e comparar as questões acima expostas na segunda metade do século XVIII. A nova conjuntura dará à reflexão novos contornos diante da ampliação e consolidação da escravidão africana, impactando demograficamente essas áreas pelo aumento da presença de cativos e de libertos. O contexto das reformas pombalinas também impactará o papel do clero secular, que será alçado à condição de maior colaboração com a coroa em decorrência das críticas que foram dirigidas a segmentos do clero regular. A questão assume maior dimensão para essa proposta em decorrência de as reformas extinguirem estigmas legais em relação aos índios e aos cristãos novos. Contudo, não o fizeram em relação aos africanos e seus descendentes, observando nesse aspecto o papel que a escravidão africana desempenhava para a manutenção da ordem social na América lusa.