Resumo do Projeto
As teorias do século XX que discutiram espetacularização da vida como fenômeno específico da era moderna anteciparam problemas filosóficos ao prognosticar os efeitos de uma cultura saturada de imagens e/ou mediadas quase que exclusivamente por imagens. No que diz respeito ao horizonte político, é inequívoco o nexo entre a virtualização da experiência e regimes de governo refratários à emancipações coletivas. Autores como Walter Benjamin e Guy Debord souberam ler, em suas análises filosóficas, o futuro catastrófico que nos alcançou no século XXI no auge da planetária digitalização tecnológica da vida. Nesse cenário de terra arrasada, como Jonathan Crary qualificou nossa época, é possível endereçar à arte a possibilidade de subversão de esquemas politicamente violentos e opressores? Se sim, cabe à filosofia responder à altura da exigência crítica do nosso tempo a fim de desmontar as lógicas tirânicas do Big Data? Nosso projeto de pesquisa se situa em torno desses debates, tendo como chave teórica as proposições do filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi em Pensar após Gaza: ensaio sobre a ferocidade e o fim do humano, publicado em 2025. Ao questionar o estatuto do pensamento diante deste evento que pode ser considerado o maior trauma histórico do nosso século, Berardi nos incita a imaginar horizontes viáveis a partir de uma reelaboração crítica e confrontadora do passado e dos processos que culminam em grandes catástrofes. Este projeto se situa em torno de uma velha pergunta - o que pode a arte diante do horror e da violência ? - entendendo que o basilar papel das imagens e das obras parece ser simbolizar e representar algo - ainda que de maneira precária, falha ou lacunar - quando os acontecimentos políticos parecem não simbolizáveis ou irrepresentáveis. Em um mundo saturado de imagens que parecem nos anestesiar cada vez mais, em vez de nos convocar a uma reação política, cabe a nós questionar o estatuto das mesmas frente à desumana imposição global de uma existência tecnificada, imagética e desprovida de sensibilidade à dor do outro.