Orientador(es): LUCIA SILVA BARRENECHEA
Área temática: MÚSICA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
Esta pesquisa teve como objetivo observar o modo como o compositor brasileiro Camargo Guarnieri (1907-1993) articula, na composição de obras do gênero “valsa”, as particularidades de sua linguagem musical. Para isto, foi analisada a maneira como a valsa relaciona-se histórica e musicalmente com outros dois gêneros, a modinha e o choro, tendo por base a ideia valsa brasileira – tratada no decorrer desta pesquisa como um conceito que sintetiza uma dialética histórica entre os gêneros valsa, modinha e choro, e que compreende não uma unidade de gênero, estanque em si mesma, mas sim uma unidade conceitual por detrás da qual reluz uma heterogeneidade de sentidos históricos e culturais figurados nos diferentes traços estilísticos que a compõem. No intervalo de tempo entre 1934 e 1959, Guarnieri compôs uma série de dez valsas para piano solo. Durante a pesquisa, foram analisadas a Valsa no. 2 (Preguiçoso) e a Valsa no. 10 (Choroso), tendo como objetivo compreender os movimentos de aproximação e de distanciamento das duas peças em relação às características da valsa brasileira, no que diz respeito às componentes estilísticas da modinha e do choro que dela fazem parte. Dentre os elementos demonstrados pela análise como relevantes para a compreensão das relações entre as valsas de Guarnieri e a linguagem da modinha e do choro, destacamos a existência de um contraste estilístico entre a seção A e a seção B. Nas duas peças analisadas, as seções A são construídas a partir de frases curtas, de contornos predominantemente descendentes, organizados frequentemente em graus conjuntos e poucos saltos intervalares maiores que uma terça. Tais elementos, somados ao andamento lento e ao caráter seresteiro de ambas as composições, remetem à linguagem vocal e à atmosfera da modinha. Em contraste, as seções B apresentam frases longas, com largos saltos intervalares e o uso intenso de dissonâncias rítmicas e métricas – elementos associados à linguagem instrumental do choro. Além disso, observamos a presença, nas peças analisadas, de relações idiomáticas com instrumentos comuns a estes gêneros, como o violão e a flauta. Entretanto, embora a análise tenha demonstrado uma inegável assimilação da tradição de valsas brasileiras pelo compositor, observamos também que esta influência não resume a totalidade dos elementos musicais de suas valsas, uma vez que, nelas, há uma marcante presença do linguagem do próprio Guarnieri, caracterizada, dentre outros elementos, pelo uso da dissonância com finalidade colorista, pela presença da textura polifônica e do contraponto como elementos estruturais de suas composições e pela tendência ao que o compositor denominava “tonalidade fugidia”. Assim, buscamos demonstrar a heterogeneidade da linguagem musical presente nas valsas de Guarnieri, que mesclam um apreço pela música de tradição urbana ao mesmo tempo em que se valem de um contraponto denso e experimentações de tendências oriundas de movimentos de vanguarda.
ALMEIDA, Alexandre Zamith. Verde e amarelo em preto e branco: as impressões do choro no piano brasileiro. UNICAMP: Campinas, 1999. RODRIGUES, Lutero. As características da linguagem musical de Camargo Guarnieri. Rio de Janeiro, 2015 TUPINAMBÁ, Martha Ulhôa. Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo século XIX: de folhetins, música de salão e serestas. Rio de Janeiro: Folio Digital, 2022