Orientador(es): ANDERSON JOSE MACHADO DE OLIVEIRA
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO ORAL
Bolsa: PIBIC
A Igreja Católica exerceu papel central no Império Português moderno, possuindo funções como a conversão e a integração de nativos. No caso de Goa, esse projeto encontrou um desafio singular ao deparar-se com uma complexa sociedade de castas, gerando disputas entre portugueses e goeses, bem como entre os próprios nativos. A relevância desta pesquisa reside na semelhança entre as disputas por posições de prestígio observadas nas instituições coloniais, no caso, a Igreja Católica, no colonialismo português, onde grupos em desvantagem buscavam ascender socialmente através da sua integração à hierarquia eclesiástica. Este trabalho analisa as dinâmicas do Arcebispado de Goa, entre os séculos XVI e XVIII, com foco na incorporação de nativos ao clero, buscando compreender as relações entre clérigos portugueses e goeses de diferentes origens e castas, e como indivíduos e grupos tentaram ascender a cargos de prestígio e limitar o acesso de rivais. A análise incide, ainda, sobre a forma como essas relações se refletiram nas normas do Arcebispado ao longo do processo de consolidação da colonização em Goa. Baseando-se em duas fontes primárias: o Archivo Portuguez Oriental, que compila decretos conciliares, e a Relação defensiva dos filhos da Índia Oriental, do Padre Miguel da Purificação, busca-se investigar os impedimentos impostos aos portugueses nascidos na Índia e indianos, barrados de cargos eclesiásticos superiores em favor dos clérigos vindos de Portugal. Através dos decretos, estuda-se a evolução institucional desta discriminação, enquanto a Relação defensiva revela o conflito entre os portugueses de Portugal e os "filhos da Índia", além da percepção destes sobre os demais goeses. Adicionalmente, a pesquisa é complementada por bibliografias secundárias sobre a conversão de Goa e a formação de seu clero. Desta forma, retrata-se a complexa integração do clero nativo no Arcebispado de Goa, que apesar de inicialmente ampla, tornou-se restritiva com o avançar dos anos, privilegiando indivíduos com “nobreza” e “limpeza de sangue”. Evidenciam-se, ainda, conflitos entre clérigos metropolitanos e goeses, e até entre os próprios nativos, que, ao buscarem ascensão hierárquica, reforçavam a estratificação social. A trajetória descrita mostra uma transição de uma ordenação mais ampla para um sistema que incorporou castas específicas, limitando ordens e gerando rivalidades por posições de prestígio dentro da Igreja. Por fim conclui-se que o processo, embora pragmático, foi marcado por disputas internas e preconceitos das hierarquias coloniais. Essas tensões, evidentes nas normas e nos conflitos, mostram que a Igreja não substituiu a hierarquia social de Goa, mas a reconfigurou, incorporando alguns de seus conceitos em sua própria hierarquia e favorecendo certos grupos nativos em detrimento de outros. Portanto, compreender essas reformulações é essencial para apreender o papel da Igreja na reprodução, na transformação e na contestação das ordens sociais coloniais.
ARCHIVO PORTUGUEZ ORIENTAL. Archivo Portuguez Oriental: Fasciculo 4º que contem OS CONSILIOS DE GOA E O SYNODO DE DIAMPER. NÓVA-GOA Imprensa Nacional. 1862. PURIFICACAO, Miguel da, O.F.M. 1589-16--,”Relação defensiva dos filhos da India Oriental e da Provinçia do Apostolo S. Thome dos Frades Menores da regular observancia da mesma India / por o P.e Frei Miguel da Purificação....” - En Barcelona : em a emprenta de Sebastião e João Matheua, 1640. Disponível em: https://purl.pt/15022 FARIA, Patricia Souza de. Nascer sem mácula na Índia Portuguesa: clérigos indianos convertidos e a inserção subordinada na ordem imperial. Associação Nacional de História – ANPUH XXIV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 2007. Disponível em: https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548210564_d810d7831d0abda456ad70a6cc296618.pdf