“VÓ, A SENHORA É LÉSBICA?”: ENTRE O COMBATE DA HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA E O CINEMA NEGRO BRASILEIRO

OTÁVIO GUERREIRO ESTEVES DE SOUZA

Apresentador(es): OTÁVIO GUERREIRO ESTEVES DE SOUZA

Orientador(es): CARLA DA SILVA MIGUELOTE


Área temática: LETRAS

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

A obra Amora (2016) da autora Natalia Borges Polesso apresenta uma perspectiva pouco habitual na literatura brasileira, pois todos os contos do livro tratam de histórias de amor entre mulheres. Trata-se de narrativas com diversas nuances, desde a primeira paixão até o relacionamento entre pessoas idosas, apresentando um rico cenário, por vezes amoroso, outra vezes conflituoso, de representação da lesbiandade. Em “Vó, a senhora é lésbica?”, é apresentado um choque geracional de casais lésbicos. A avó viveu seu relacionamento escondido, enquanto a neta pode apresentar sua namorada para o grupo de amigos. No curta-metragem homônimo, a escolha de representar esses casais como interraciais adiciona mais camadas de interpretação. O objetivo da pesquisa é analisar o conto “Vó, a Senhora é lésbica?” e a forma como a narrativa representa os relacionamentos lésbicos. Também compreender as escolhas de adaptação para o curta-metragem homônimo e como dialogam com a linhagem do cinema negro brasileiro lésbico. A metodologia usada foi leitura de textos teóricos, como “O Feminismo é sensacional”, “Sobre como nos direcionam” e “Feminismo lésbico”, capítulos do livro Viver Uma Vida Feminista, da autora Sarah Ahmed; “Velhice e biologia” e “Os dados da etnologia”, capítulos de A Velhice, de Simone de Beauvoir. Também foi realizada a leitura dos artigos “O desejo e o envelhecimento do corpo lésbico nos poemas de Rita Moreira”, de Carla Miguelote, “Entre alegrias e agruras da velhice”, de Eurídice de Figueiredo, e “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”, de Adrienne Rich. Na literatura, geralmente as pessoas velhas são representadas como cuidadoras dos netos para que os pais possam viver a vida. Essa representação apaga e inviabiliza os desejos dos idosos, inclusive os amorosos e sexuais. A heterossexualidade compulsória, conforme afirma Adrienne Rich, é uma instituição política que retira o poder das mulheres e apaga a existência lésbica. “Vó, a senhora é lésbica?” faz uma representação da lesbiandade que subverte essas normas ao apresentar uma avó que não está resumida aos cuidados dos netos, mas tem desejos, inclusive por outra mulher, o que configura uma subversão da heteronormatividade compulsória. A adaptação para o curta homônimo mantém essa subversão e, ao adicionar casais interraciais, cria formas de diálogos com a tradição do cinema negro brasileiro. Ao longo do percurso da pesquisa, foi notado que o tema da velhice é por vezes negligenciado dos estudos feministas. O estudo foi uma oportunidade para aprofundar esse tema. Por outro lado, o estudo da adaptação para o curta também foi uma oportunidade de compreender como as escolhas de adaptação se relacionam com a obra original, podendo expandir questões então latentes.

Bibliografia

AHMED, Sara. Viver uma vida feminista. São Paulo: Ubu Editora. 2022. BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018. E-book FIGUEIREDO, Eurídice. Por uma crítica feminista: leituras transversais de escritoras brasileiras. Porto Alegre: Zouk, 2020. p. 241-251. MIGUELOTE, Carla. O desejo e o envelhecimento do corpo lésbico nos poemas de Rita Moreira. In: Alós, Anselmo Peres; Ferreira, Cinara Antunes; Sillva-Reis; Dennys. (Org.). Poéticas e políticas do feminino na literatura. 1ed. Porto Alegre: Class, 2021, v., p. 252-267. POLESSO, Natalia Borges. Amora. Porto Alegre: Dubliense. 2022. RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. In: Bagoas – Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 4, n. 05, jan./jun. 2010, p. 17-44. Disponível em https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2309/1742. Acesso em 14.12.2020.

Palavras-chave

Conto sexualidade cinema
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