ENTRE A POSSE E A LIBERDADE: ESCRAVIDÃO, ALFORRIAS E DEVOÇÃO NO TESTAMENTO DE JOÃO BAPTISTA DO AMARAL (1729)

CAMILA SOARES RODRIGUES

Apresentador(es): CAMILA SOARES RODRIGUES

Orientador(es): ANDERSON JOSE MACHADO DE OLIVEIRA


Área temática: HISTÓRIA

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

A presente pesquisa se propõe a analisar o testamento de João Baptista do Amaral, datado de 1729, como uma fonte privilegiada para a compreensão da escravidão, alforria e das relações de dependência no Rio de Janeiro colonial. A escolha do tema se justifica pela necessidade de investigar como as alforrias, registradas em documentos como testamentos, não se configuravam apenas como atos individuais, mas como estratégias sociais, econômicas e religiosas, intrinsecamente ligadas à salvação da alma do testador e à manutenção de redes de poder e memória familiar. O objetivo central é, portanto, investigar a articulação entre poder senhorial e devoção religiosa a partir das disposições de um indivíduo do período, buscando identificar os escravos e seus destinos, analisar os critérios que orientaram as libertações e relacionar essa prática ao universo religioso, especialmente aos vínculos com Irmandades, para compreender como as relações de libertação revelavam aspectos mais amplos da sociedade colonial. A metodologia empregada envolveu a transcrição e leitura crítica do testamento de João Baptista do Amaral, que se constituiu como fonte central. A partir dessa análise, foram construídos quadros e fichas de coleta que permitiram classificar os indivíduos mencionados no testamento e suas respectivas condições. Simultaneamente, foi realizado um levantamento detalhado das disposições religiosas do documento, como a determinação de missas e afiliações a Irmandades. Essas informações foram organizadas em um banco de dados temático, facilitando o cruzamento entre as práticas de escravidão e religiosidade. Paralelamente, leituras teóricas de referência foram realizadas para contextualizar as práticas de alforria e sua relação com a cultura social e religiosa do período. Os resultados alcançados demonstram que o testamento de João Baptista do Amaral funcionou como um espaço crucial para a articulação entre poder senhorial e devoção. Verificou-se que a concessão de alforrias estava ligada a múltiplos critérios, como afeto, lealdade e utilidade, mas com forte ênfase nas preocupações espirituais. O documento apresenta um conjunto detalhado de disposições religiosas que reforçam a dimensão da religiosidade setecentista, evidenciando que a libertação de cativos, as doações e os ritos fúnebres estavam profundamente relacionados à busca pela salvação da alma e à construção da memória social do testador. Em conclusão, a pesquisa em andamento aponta que o testamento analisado é uma fonte privilegiada para compreender o entrelaçamento entre escravidão, alforria e religiosidade. As libertações concedidas expressam não apenas relações pessoais, mas também estratégias sociais e religiosas complexas, conectando a liberdade dos cativos às práticas de devoção. Este estudo contribui para uma compreensão mais ampla das relações de dependência e poder na colônia, revelando como a escravidão e a religiosidade se entrelaçavam na organização da vida e da morte e abrindo novas perspectivas para investigações futuras sobre o tema.

Bibliografia

SOARES, Márcio de Sousa. A remissão do cativeiro: a dádiva da alforria e o governo dos escravos nos Campos do Goitacases, c. 1750 – c. 1830. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009. SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. SOARES, Mariza de C. Devotos da cor: Identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Palavras-chave

Escravidão alforria testamento religiosidade Rio de Janeiro colonial.
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