Orientador(es): MARIA JOSÉ CARDOSO LEMOS
Área temática: LETRAS
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
Esta pesquisa tem como finalidade explorar a noção do gênero lírico através da performance do corpo social da mulher, especificamente através da escrita plural da escritora mineira Adélia Prado (1935) onde através do livro Bagagem (1976), será abordado o sentido em que autobiografia ficcional atribui para a poesia moderna no contexto dos anos 70, além da sua contribuição para a poesia no Brasil a partir de poetas mulheres. Enxergar as caracteristicas que definem Adélia dentro de seu período histórico-social, nos permite entender como ela é capaz de influenciar as singularidades das performances engendradas do corpo social da mulher, e pegando emprestado um dos seus versos, "inaugurar linhagens" na dentro da tradição da literatura. O trabalho constante de leituras e fichamentos, permitiu a compreensão da obra de Adélia e os diálogos traçados com poetas mulheres, principalmente do livro Bagagem, analisando mais especificamente passagens consideradas notáveis e discutindo sua maneira de fazer poesia, lírica e intelectual. A leitura de obras relacionadas com autores modernistas - Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e feministas - Helena Cixous, Judith Butler, Ana Cristina César acrescentaram na construção da pesquisa em assuntos como condições da mulher, linguagem e memória. Reuniões quinzenais liderados pela professora Masé Lemos, encaminharam a pesquisa para um ritmo constante de entendimento de novos códigos da literatura. Bagagem se trata especificamente de poemas que portam signos de uma história pessoal, de maneira a não deixar latente a sua voz de "mulher", nem em imagem, nem em forma. Ela se torna uma das primeiras autoras brasileiras a ter uma voz ativa e profundamente feminina em sua arte, sem espaços para vulgarizações excessivas. Ana Cristina César em Escrita e Tradução(1999) infere que sua escrita tem um feminino violento, terroso, disfarçado de sua persona de "boa moça"(p.197), e à compara com Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, dois dos maiores nome do modernismo de poucas gerações anteriores, inferindo que Adélia "supera a feminização do universo imagético pel feminização temática. Ser mulher é tema e motivo de sua produção". Com a figura do ser "mulher" como aspecto central de sua escrita, soa inevitavelmente de acordo com os aparatos que os movimentos feministas das décadas de 70 e 80, utilizavam-se para a projeção social das mulheres na sociedade, "Para a teoria feminista, o desenvolvimento de uma linguagem capaz de representá-la completa ou adequadamente pareceu necessário, a fim de promover a visibilidade política das mulheres. Isso parecia obviamente importante, considerando a condição cultural difusa na qual a vida das mulheres era mal representada ou simplesmente não representada." como aponta Judith Butler (2018, p.15). Uma dona de casa católica que se utiliza dos melos de comunicação para expor seu corpo pensamento em plena ditadura militar, tornam ela uma vanguarda da poética feminista dentro do modernismo brasileiro, mesmo que de forma acidental. Estendendo sua interioridade em versos que materializam potência dentro das estruturas sociais, é criado um eu poético que faz comunhão entre o banal e o divino ligando o mundo diretamente às suas palavras. É desdobrável, com inúmeras abordagens dentro de sua escrita, onde centraliza desde do começo um intenso eu lírico feminino distante das, até então, reduções comuns da literatura na figura do feminino, inaugurando novas tradições da literatura brasileira.
RADO, Adélia. Bagagem (2aedição). Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1979.t BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade, (tr. br. Renato Aguilar), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003. RODRIGUES, Carla; BORGES, Luciana; RAMOS, Tania Regina de Oliveira (org.). Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Funarte, 2016.