Orientador(es): CLAUDIA MIRANDA
Área temática: EDUCAÇÃO
Modalidade de apresentação: SESSÃO ORAL
Bolsa: PIBIC - AF
O Encontro Intercultural Educria surgiu em 2023, durante a disciplina de Currículo ministrada pela professora Cláudia Miranda, como iniciativa de estudantes de Pedagogia e licenciaturas da UNIRIO. A proposta nasceu da necessidade de criar um espaço em que estudantes do turno noturno tivessem a oportunidade de participar de eventos universitários, já que a maioria ocorre em horários incompatíveis com suas rotinas. Assim, o Educria foi organizado por alunos do noturno para alunos do noturno, afirmando seu direito à permanência e ao protagonismo acadêmico - “Já que não fazem por nós, por que nós mesmos não o fazemos?”. Desse modo, formou-se o I Encontro Intercultural Educria. Desde a primeira edição, o evento buscou ampliar suas temáticas, incorporando questões ligadas à educação intercultural, como os diálogos entre religiões de matrizes africanas e pedagogia, educação indígena, entre outras reflexões que tensionam o campo curricular. Consolidou-se como espaço de produção coletiva de conhecimento e fortalecimento de redes, mas também como território de escuta, afeto e acolhimento, em que a permanência estudantil é ressignificada pela força da coletividade. Essa experiência se articula ao plano de estudos da Iniciação Científica da qual fui bolsista, que mapeia práticas comunitárias e insurgentes produtoras de alternativas pedagógicas fora das estruturas hegemônicas de ensino. Esses movimentos se organizam em redes formativas compostas por educadores, coletivos e famílias, revelando um ethos descolonizador que dialoga com a perspectiva intercultural presente no Educria, que se tornou um projeto potente de partilha coletiva de aprendizagens significativas e interculturais. Com base em levantamento bibliográfico e documental, analisamos a capilaridade da abordagem intercultural, compreendendo o currículo como espaço-tempo de fronteiras e de rupturas com a colonialidade do poder (QUIJANO, 2005). Nesse quadro, o Educria se afirma como prática concreta dessas “outras pedagogias possíveis”, ao valorizar múltiplas vozes e epistemologias, sobretudo as oriundas de contextos populares. Em sintonia, Catherine Walsh (2019) defende que a educação intercultural deve ser pensada como projeto político e ético, capaz de transformar a relação entre diferença e poder. Esse percurso também se insere em um cenário atravessado pelos efeitos da necropolítica (MBEMBE, 2018), intensificados durante e após a pandemia de COVID-19, que impactaram especialmente grupos vulnerabilizados. Assim, o Educria se fortalece como resposta coletiva, articulando resistência, leveza e pertencimento. Conecta-se ainda às práticas comunitárias que, a partir de multilinguagens, promovem aprendizagens interculturais emancipatórias e disputam narrativas curriculares. Desse modo, o Educria transcende sua dimensão de evento acadêmico e se consolida como prática formativa, política e intercultural, alinhada às reflexões sobre currículo, movimentos pedagógicos e redes formativas. Reafirma que permanecer na universidade não é apenas resistir individualmente, mas criar coletivos e construir outras formas de ensinar e aprender. Assim, contribui para a construção de uma universidade crítica, decolonial e comprometida com a diversidade de saberes e sujeitos. O Educria é, portanto, um gesto de esperança e continuidade.
Mbembe, Achille. Necropolítica . 3. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018. Mbembe, Achille. Políticas da Inimizade. São Paulo: n-1 edições, 2018. Quijano, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. Walsh, Catherine Interculturalidade e decolonialidade do poder um pensamento e posicionamento "outro" a partir da diferença colonial. Revista Eletrônica da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). V. 05, N. 1, Jan.-Jul., 2019.