Orientador(es): FERNANDA DO VALLE GALVAO DEBETTO
Área temática: BIBLIOTECONOMIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
A trajetória da filósofa, escritora e dramaturga britânica Margaret Cavendish (1623-1673), também conhecida como Duquesa de Newcastle, evidencia tensões entre memória, poder e esquecimento na cultura europeia. Membro da aristocracia inglesa do século XVII, interpretada posteriormente como filósofa da natureza, protofeminista e pioneira da ficção científica, teve sua ousadia intelectual desqualificada pelas personalidades masculinas de seu tempo, contribuindo para a marginalização de sua obra e memória. Museus, galerias e arquivos, responsáveis por preservar a memória, também reproduzem tais exclusões em seus catálogos, mostrando como práticas de documentação moldam narrativas e reforçam desigualdades de gênero. Partindo da hipótese de que a família Cavendish, composta por Margaret e seu marido, William Cavendish (1592-1676), primeiro Duque de Newcastle upon Tyne, possuía registros de suas vidas e produções intelectuais, o objetivo principal foi mapear a presença da duquesa em museus, arquivos e galerias da Inglaterra, França e Bélgica, analisando catálogos digitais em acesso aberto e verificando como sua memória é preservada ou silenciada. O levantamento total identificou 397 instituições, distribuídas entre Inglaterra (172), França (176) e Bélgica, sendo 232 públicas e 93 privadas, com predominância de museus (245), seguidos de galerias (30), arquivos (16) e bibliotecas (2). Os registros válidos sobre a presença de Cavendish foram considerados escassos: 23 na Inglaterra, 4 na Bélgica e nenhum na França. Delimitando o cenário de museus, apresentado nesta etapa de resultados, 12 obtiveram ocorrências. Nesse contexto, foram identificadas 10 tipologias documentais que retornaram 85 itens nos catálogos digitais. Porém, alguns destes possuem repetições. Como exemplo, quando catalogam uma imagem, as instituições museológicas podem diferenciar o metadado dimensão, por isso, as peças foram consideradas únicas enquanto objeto, mas não únicas relativas ao conteúdo informativo. A análise mostrou que a maior parte das ilustrações sobre Margaret e/ou William Cavendish, indexadas em museus desses três países, é majoritariamente feita por homens. Em contrapartida, somente uma mulher emerge no metadado de autoria, sendo a própria Margaret Cavendish: imagens relacionadas ao livro de sua autoria, evidenciando que sua representação visual permanece marcada pelo olhar masculino e fortemente associada à figura de seu marido, William. Conclui-se então que a memória de Margaret Cavendish permanece sub-representada, muitas vezes subordinada e acompanhada de seu marido, as vezes sem terminologias de representação específicas de sua figura, revelando práticas de silenciamento que atravessam séculos e reforçam lacunas na documentação museológica europeia. Apesar de sua condição aristocrática, por ser uma figura feminina no século XVII, sua imagem foi preservada negativamente por conta de seu desejo de se inserir em contextos predominantes masculinos. Com a análise de documentos museológicos, percebeu-se significativas lacunas sobre a preservação de sua memória, marcada pela escassez de registros, apontando para a necessidade de repensar políticas de pesquisa e documentação que fortaleçam biografias e narrativas femininas, como a de Cavendish, e assegurem visibilidade destas figuras. Esta pesquisa evidencia fragilidades nos registros de preservação da memória museológica de mulheres e oferece subsídios para reflexões de pluralidade em processos de representação.
BALDO, Milene Cristina da Silva. O mundo resplandecente, de Margaret Cavendish: estudo e tradução. Campinas: [s.n.], 2014. BRITTO, C. C. Os museus e o campo da informação: processos museais, museologia e Ciência da Informação. São Paulo: Abecin Editora, 2023. SMIT, J. W. (org.). Análise documentária: a análise da síntese. Brasília: Ibict, 1987.