O CABELO E A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE DA MULHER NEGRA NAS OBRAS DE DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA E YASMIN THAYNÁ

THEREZA DUTRA MARTINS

Apresentador(es): THEREZA DUTRA MARTINS

Orientador(es): CARLA DA SILVA MIGUELOTE


Área temática: LETRAS

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

Tendo como objetos centrais de estudo o livro Esse Cabelo, da autora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida, e o curta-metragem Kbela, da brasileira Yasmin Thayná, essa pesquisa visa a refletir sobre o cabelo como importante fator no processo de construção da identidade da mulher negra. A análise das obras, à luz das referências teóricas, permite estabelecer um diálogo significativo entre as temáticas abordadas por ambas, evidenciando tanto os pontos de convergência quanto as especificidades de cada narrativa. Enquanto Djaimilia Pereira de Almeida apresenta a trajetória de uma mulher imigrante criada em Portugal, Yasmin Thayná retrata vivências de mulheres negras no contexto brasileiro. O conceito de “escrevivência”, formulado por Conceição Evaristo, diz respeito à prática de narrar experiências pessoais, especialmente aquelas vividas por mulheres negras, assumindo um caráter político ao afirmar a relevância de dar voz a narrativas historicamente marginalizadas e silenciadas. As obras Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida, e Kbela, de Yasmin Thayná, incorporam esse conceito ao transformar experiências individuais e coletivas - marcadas pela dor, memória e resistência - em expressão artística. Por meio da escrita ou da linguagem audiovisual, ambas as autoras exercem a escrevivência, ressignificando o corpo, a identidade e a história da mulher negra. Visando aprofundar o estudo sobre o cabelo como peça central do processo de afirmação da identidade da mulher negra, se integram na pesquisa textos da teórica americana bell hooks e da autora portuguesa Grada Kilomba. Sobre o pensamento feminista negro brasileiro, foram analisadas as obras Racismo e sexismo na cultura brasileira, de Lélia Gonzalez e Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita, de Conceição Evaristo. Para bell hooks, a desvalorização da estética e da subjetividade dos corpos negros - especialmente dos corpos femininos negros - constitui um dos principais dispositivos de perpetuação das estruturas racistas. A imposição hegemônica de padrões estéticos eurocêntricos sobre o corpo de mulheres negras atua como um violento instrumento de dominação, forçando-as a negar seus traços através de procedimentos alisantes e dolorosos processos químicos. Tanto Kbela quanto Esse Cabelo possuem a materialidade do cabelo crespo como elemento narrativo estruturante, perpassando por experiências comuns a mulheres negras, particularmente aquelas inseridas em contextos majoritariamente brancos. Em ambas as obras o corpo - em especial, o cabelo - torna-se não só um lugar de inscrição das marcas do colonialismo, que perpetuam a hegemonia dos padrões de beleza eurocêntricos, mas, principalmente, um símbolo de resistência, memória e pertencimento.

Bibliografia

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. Esse cabelo: a tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras. Rio de Janeiro: Leya, 2017. EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Organizado por Marcos Antônio Alexandre. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 16-21 GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244. HOOKS, bell. Alisando nosso cabelo. Revista Gazeta de Cuba – Unión de escritores y artista de Cuba, jan-fev. 2005. Tradução do espanhol: Lia Maria dos Santos. Kbela. Yasmin Thayná. 2015 KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

Palavras-chave

Djaimilia Pereira de Almeida Yasmin Thayná cabelo gênero identidade
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