Orientador(es): CHRISTINA CARNEIRO STREVA
Área temática: TEATRO
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
Nos meus trabalhos com o Cabaré Incoerente, projeto da professora e minha orientadora Christina Streva, fui apresentada à linguagem do cabaré cuja proposta dramatúrgica difere da concepção clássica, em que o dramaturgo tem autonomia sobre o roteiro. No Cabaré, quem está em cena também a escreve, o que gerou um dilema: entender a função do dramaturgo dentro do cabaré e como ele conversa com a autonomia dos atores-criadores. A partir disso, foi definido como objetivo da pesquisa a investigação do papel do dramaturgo no cabaré e de quais seriam as múltiplas possibilidades de construção de dramaturgia dentro dessa linguagem, num diálogo entre o meu trabalho enquanto dramaturga no Cabaré Incoerente com os grupos que fui conhecendo ao longo da minha vivência com a cultura cabareta do Rio de Janeiro. Para esse processo, foram realizadas leitura da bibliografia a fim de procurar conceitos de construção dramatúrgica do cabaré sob perspectivas daqueles que criam cabaré, além de pesquisa de campo em cabarés e entrevistas com criadores para levantar diferenças e semelhanças em seus processos de criação. Como gênero subversivo, contracolonial e múltiplo, a pesquisa se deparou com uma abundante diversidade de dramaturgias, que iam da paródia de talk shows à festa performática e show de variedades, em que pouco se pedia um documento escrito, em contraste com o meu trabalho nos espetáculos “Bar do Zé” (2023) e “A Guerra dos Bichos” (2024), pelo Incoerente. Ainda assim, a figura do dramaturgo se mostrou importante em alguns casos como aquele que costura os números justapostos do espetáculo, criando uma unidade entre eles. A especialidade foi um tópico marcante. Como linguagem ligada não só às noites mas também ao underground e, portanto, a uma arte independente e muitas vezes precarizada, o cabaré se adequa a muitos espaços diferentes, mostrando uma maleabilidade ímpar, o que também é um fator para quebrar com a rigidez do documento escrito tradicional. A arquitetura e o ambiente interferem diretamente na dramaturgia, sendo o espaço também parte da experiência: é nos lugares possíveis de se dançar e conversar que se constroem afetos, se discute sobre as performances desenvolvendo senso crítico artístico bem como relações de afeto com as pessoas e o local. A dramaturgia se expande para além do que é texto, contemplando cada detalhe daquela experiência. Alguns questionamentos se abrem diante disso. Se o espaço e a relação com quem está nele são parte da dramaturgia, e o cabaré tem forte conexão com a performance e traz fortemente a conexão entre arte e vida, não seria a dramaturgia do cabaré, em si, uma forma de se viver e de se colocar o corpo no mundo? De que maneira a subversão e contracolonialidade que aparece nesses espaços, muito frequentados seja por artistas e públicos com corpos dissidentes, pode nos ensinar sobre a vida? Me interessa, ao fim disso tudo, o cabaré para além de arte, como forma de ética e de pedagogia.
STREVA, Christina. Por um ator-provocador e um professor-criador: uma pesquisa-ação sobre a performance do cabaré. Tese (Doutorado). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO. Rio de Janeiro, 2017. Orientadora: Rosyane Trotta. NOLASCO, Ricardo. Cabaréturgia: COMO SE INSCREVE CABARÉ. Tese (Mestrado em Artes Cênicas). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO. Rio de Janeiro, 2022. Orientadora: Christina Streva BRAGA, Cleber. Tra(d)ição como ética decolonial do cabaré sudaca: Cantada em prosa, verso e rebolado!. Artigo. Urdimento - Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, V. 2, n. 41, set. 2021.