JOGO CULINÁRIO - “PÚBLICO DOS ESPORTES”, TEATRO E COMIDA

WALDOMIRO FACHAL JÚNIOR

Apresentador(es): WALDOMIRO FACHAL JÚNIOR

Orientador(es): CLARISSE TOSCANO DE ARAUJO GURGEL


Área temática: CIÊNCIAS SOCIAIS

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

O plano de estudo teve como objetivo central investigar a articulação entre alimentação, jogo e teatralidade, buscando compreender como práticas que atravessam a vida cotidiana podem se transformar em espaços de produção simbólica e reflexão crítica. Assim, a alimentação foi tomada como ponto de interseção entre necessidade vital e acontecimento cultural, abrindo-se à análise de sua dimensão estética e social. Um dos objetivos específicos foi refletir sobre o jogo como categoria filosófica fundamental, em diálogo com autores como Eugen Fink e Johan Huizinga. Fink contribui com a ideia de que o jogo é símbolo do mundo, expressão de um destino trágico em que se entrelaçam acaso e ordem, liberdade e necessidade. Huizinga, por sua vez, concebe o jogo como elemento constitutivo da cultura, anterior e mais profundo que instituições ou práticas codificadas. A pesquisa buscou relacionar essas abordagens à cena alimentar e teatral, entendendo o ato de comer como experiência que, além de saciar a fome, mobiliza regras, rituais e afetos coletivos que podem ser lidos como jogo. Outro objetivo importante consistiu em inserir a discussão no campo da crítica social, mobilizando o pensamento de Karl Marx. A partir de Marx, a alimentação foi situada como fenômeno atravessado por relações de produção e de alienação, em que o alimento, antes de ser experiência estética, é produto do metabolismo social e da luta pela sobrevivência. Nesse sentido, a pesquisa objetivou não apenas compreender o alimento como jogo, mas situá-lo dentro da trama da técnica e da alienação. O percurso da pesquisa se deu sobretudo em dois eixos complementares: de um lado, a consolidação de um programa de leituras e debates teóricos; de outro, a inserção em atividades coletivas e extensionistas que serviram como campo de experimentação e diálogo. Do ponto de vista conceitual, a pesquisa consolidou uma base interdisciplinar que permitiu reinterpretar o fenômeno da alimentação como acontecimento cultural dotado de densidade filosófica. No plano experimental, os encontros de ritmanálise configuraram-se como um laboratório vivo. Neles, conceitos de Bachelard e Lefebvre foram aplicados à análise dos ritmos acadêmicos e sociais, permitindo compreender de modo mais concreto a relação entre tempo, aceleração e sofrimento psíquico. Esse processo não se limitou à abstração teórica: a própria dinâmica dos encontros, marcados por diálogo horizontal entre professoras e discentes, foi resultado experimental de outra forma de pensar e organizar o tempo. O avanço se deu, portanto, não apenas no aprendizado conceitual, mas na criação de um espaço de cuidado e reflexão coletiva que, por si só, já constitui resultado positivo ao projeto. A oficina de extensão no curso de Serviço Social ampliou ainda mais esse horizonte, transformando a reflexão em prática pedagógica. Os jogos educacionais e as conversas com familiares de usuários de CAPS, por exemplo, constituíram um exercício real de articulação entre filosofia, pedagogia e cuidado social. O resultado dessa experiência não se resume a uma atividade isolada, mas representa a validação de que os conceitos discutidos — jogo, espetáculo, alienação, técnica — podem ser aplicados em contextos de formação e transformação coletiva. Houve, assim, um avanço experimental e prático, no sentido de que a pesquisa extrapolou o espaço restrito da leitura e se materializou em intervenção acadêmica e social.

Bibliografia

BACHELARD, Gaston. A Dialética da Duração. São Paulo: Ática, 1988. BRECHT, Bertolt. Pequeno Organon para o Teatro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. FINK, Eugen. Play as Symbol of the World and Other Writings. Indiana University Press, 2016. FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta. São Paulo: Annablume, 2002. HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 2000. MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004. LEFEBVRE, Henri. A Produção do Espaço. São Paulo: Centauro, 2006.

Palavras-chave

jogo Fink Marx saúde mental comida
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