Orientador(es): RENATA BORCHETTA FERNANDES FONSECA
Área temática: NUTRIÇÃO
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
A mandioca (Manihot esculenta Crantz) é uma das espécies cultivadas mais antigas das Américas, domesticada por povos indígenas na região amazônica há cerca de 10 mil anos. Desde então, consolidou-se como alimento básico da culinária nacional e símbolo cultural, presente tanto na subsistência de populações tradicionais quanto na identidade coletiva de diferentes povos. Atualmente ela garante parte da alimentação de mais de 800 milhões de pessoas no mundo, sobretudo em regiões marcadas por insegurança alimentar. No Brasil, por exemplo, ela é cultivada em todas as regiões, adaptando-se a climas, solos e práticas agrícolas diversas, o que comprova sua característica resiliente. Do ponto de vista nutricional, ela destaca-se como importante fonte de carboidratos, especialmente o amido, funcionando como um alimento energético. E embora não seja rica em proteínas, ferro e vitaminas, sua versatilidade culinária e complementaridade em dietas equilibradas a tornam fundamental em contextos de vulnerabilidade. Além da nutrição, a mandioca guarda também um forte valor simbólico, afetivo e cultural, estando presente em receitas tradicionais, celebrações populares e na transmissão de saberes ancestrais. Os objetivos do trabalho foram: analisar a mandioca sob dimensões históricas, culturais, nutricionais, sociais e ambientais; investigar práticas de cultivo, beneficiamento e preparo regionais; identificar sua importância como alimento básico e estratégico; examinar sua presença em tradições e refletir sobre seu reconhecimento como patrimônio alimentar. A pesquisa utilizou revisão integrativa da literatura em bases como SciELO, Google Scholar e documentos da FAO, IBGE e EMBRAPA, articulando ciência e saberes tradicionais. Os resultados revelaram que a mandioca ultrapassa seu valor nutricional, configurando-se como patrimônio cultural e elemento basilar da identidade alimentar brasileira. No Sul, há o predomínio da mandioca mansa, voltada para fécula e polvilho. No Sudeste, convivem variedades mansas e bravas, com estas últimas sendo processadas em casas de farinha. Já no Centro-Oeste, coexistem cultivos tradicionais e produção mecanizada. E por fim, no Norte e Nordeste a mandioca brava é central, sendo transformada em farinha d’água, tucupi, beiju e goma, produtos, estes, que integram rituais e práticas culturais. Além da diversidade regional, identificou-se seu papel essencial para a agricultura familiar, geração de renda e inserção em políticas públicas como PNAE e PAA. Também constatou-se sua dimensão imaterial, associada a memórias, festividades e resistência cultural, sobretudo entre povos originários e comunidades tradicionais, ainda que persistam desafios como pragas, manejo adequado para reduzir o cianeto em certas variedades e os riscos da monocultura, que ameaçam a diversidade genética e cultural. Conclui-se, portanto, que a mandioca é um alimento multifacetado, unindo tradição e inovação, identidade e sustentabilidade. Que ela reafirma-se como elo entre passado e presente, ciência e cultura, nutrição e afetividade. E que sua valorização é estratégica para fortalecer a agricultura familiar, preservar saberes ancestrais e construir sistemas alimentares mais justos e sustentáveis, garantindo segurança e soberania alimentar no Brasil.
EMBRAPA. Panorama da produção de mandioca no Brasil e sua relevância para a agricultura familiar. Brasília: Embrapa Mandioca e Fruticultura, 2020. FREIRE, J. M. Mandioca e memória: o alimento como resistência nas comunidades tradicionais. Cadernos de Cultura Popular, Salvador, v. 3, n. 1, p. 78–92, 2015. FUKUDA, W. M. G. et al. A importância da mandioca em contextos de insegurança alimentar: adaptabilidade e papel estratégico. Alimentação e Sociedade, v. 8, n. 2, p. 99–117, 2010.