Orientador(es): MARCELO ROSANOVA FERRARO
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
A Revolta de Manoel Congo e Mariana Crioula, ocorrida em 1838, em Vassouras, foi uma das maiores insurreições escravas ocorridas no Vale do Paraíba, amplamente estudada pelo grande número de insurgentes e pelo seu efêmero sucesso, interrompido pela rápida mobilização da classe senhorial. Nos estudos sobre esse evento, nota-se o apagamento das mulheres escravizadas, embora estas tenham fugido, sido capturadas, submetidas à investigação, interrogadas e absolvidas junto com seus companheiros. Assim, surgiram as seguintes questões: de que forma e em que medida as mulheres participaram da Revolta de Manoel Congo e Mariana Crioula? Os objetivos deste trabalho foram a revisitação da historiografia da Revolta de 1838 e a historiografia da escravidão do século XIX em Vassouras, para se compreender como a questão de gênero e a história das mulheres foram retratadas ou omitidas, e a revisitação das fontes produzidas no contexto da Revolta a partir da perspectiva de gênero, para se entender o papel das mulheres e da família escravizada na insurreição. Por fim, a metodologia empregada foi a pesquisa documental e a análise comparativa de fontes históricas com abordagem crítica e contextual. Quanto aos resultados, percebeu-se, através da análise das fontes, a participação das mulheres na organização e nas ações do levante. Assim, confirma-se a hipótese de que as mulheres, junto com suas famílias, tiveram um papel fundamental na insurreição. Considerando que as fontes evidenciam a participação das mulheres, ainda que em menor número em relação aos homens, e que a historiografia do levante não aborda essa questão, também confirma-se a hipótese de que a participação feminina na Revolta deixou de ser ressaltada pela historiografia da insurreição. Ademais, incluiu-se uma nova fonte no debate historiográfico da Revolta: o processo-crime de 1839, em que o réu Adrião, um escravizado pertencente ao capitão-mor Manoel Francisco Xavier, é acusado de agredir um homem livre. Este auto é útil por conter uma lista de escravizados apadrinhados e presos ainda no contexto da repressão ao levante, e por revelar mais aspectos da organização e da execução da Revolta a partir da interrogação feita ao réu. Além disso, traçou-se uma nova demografia do levante, uma vez que, com a nova fonte, foi possível passar de um espaço amostral de 31 escravizados para outro de 90 escravizados, tornando a nova demografia produzida mais precisa. A releitura das fontes já bastante conhecidas permitiu a percepção de novos detalhes relacionados à estruturação do levante e às tendências da justiça escravista brasileira. A principal produção do trabalho é o banco de dados organizado a partir do cruzamento das fontes históricas, no qual estão arrolados os escravizados envolvidos na Revolta de Manoel Congo e de Mariana Crioula. Pretende-se aproveitar o banco de dados e o relatório para a produção de artigos com o resultado da pesquisa e transcrever a nova fonte encontrada.
GOMES, F. S. Histórias de Quilombolas: Mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. PINAUD, J. L. et al. Insurreição Negra e Justiça: Paty do Alferes, 1838. Rio de Janeiro: OAB, 1987. SALLES, R. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX. Senhores e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.