O JONGO COMO RESISTÊNCIA ESCRAVA NAS FAZENDAS DO VALE DO PARAÍBA FLUMINENSE

ERIC K. PEDROSA DA SILVA

Apresentador(es): ERIC K. PEDROSA DA SILVA

Orientador(es): MARIANA DE AGUIAR FERREIRA MUAZE


Área temática: HISTÓRIA

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

A motivação para este estudo sobre o jongo como forma de resistência escrava nasce de uma inquietação sobre a complexidade das experiências cotidianas da comunidade escravizada. Para além da brutalidade do sistema escravista, existia um universo cultural resiliente, que não apenas sobrevivia, mas também contestava a opressão, muitas vezes de maneiras sutis. O jongo e seus aspectos, representam um campo fértil de investigação quanto a agência dos escravizados e sua capacidade de criar espaços de autonomia como a formação da comunidade escrava em meio a um ambiente de extrema vigilância e violência. O objetivo deste trabalho está em analisar o jongo como um importante instrumento de resistência política e social utilizado pelos escravizados nas fazendas durante o século XIX. Demonstrar como, através das festas de jongo, os jongueiros conseguiam criticar o sistema, planejar fugas, comunicar notícias entre as senzalas, satirizar os senhores e feitores, e fortalecer os laços comunitários e a identidade cultural africana. Com isso evidenciar que, sob a aparência de uma simples "festa de pretos", pulsava um complexo sistema de comunicação e organização social que subvertia a ordem vigente. A metodologia para a produção deste trabalho baseou-se na análise qualitativa de fontes históricas primárias e secundárias. Em um primeiro momento, foram examinados os relatos de viajantes estrangeiros que percorreram o Vale do Paraíba no século XIX. Embora frequentemente marcados por um viés etnocêntrico, esses documentos oferecem descrições valiosas quanto às práticas costumeiras das fazendas, entre elas o jongo. Através de uma leitura crítica de vestígios deixados pelos viajantes, buscou-se extrair detalhes sobre seus aspectos gerais, interpretando-os no contexto de dominação e resistência. Os resultados até o momento apontam para o jongo como um pilar da resistência escrava no Vale do Paraíba. Constatou-se que a performance coletiva, envolvendo a dança em roda, o canto e a batida dos tambores, fortalecia o sentimento de pertencimento e a conexão do grupo, recriando laços de solidariedade e reafirmando uma identidade cultural comum, em oposição à tentativa de desumanização promovida pela escravidão. Para além disso, nota-se também a dualidade entre a autonomia escrava e o controle senhorial que permitia os festejos buscando evitar revoltas e com isso manter o controle dos escravizados. Em suma, o trabalho busca reforçar a ideia de que o jongo no Vale do Paraíba fluminense se constitui como uma complexa e eficaz estratégia de resistência escrava. Foi um espaço de autonomia, criatividade e articulação política, onde os escravizados exerciam sua agência, preservavam sua memória e cultura, e lutavam contra a opressão do sistema escravista. A análise dos relatos de viajantes permitiu compreender com clareza esta importante manifestação, a aparente diversão, tolerada e até incentivada por alguns senhores, e a sua essência conspiratória e identitária, temida e reprimida.

Bibliografia

DE SOUZA, Silvia Cristina Martins. De "dança de negros" a patrimônio cultural: notas sobre a trajetória histórica do jongo do sudeste brasileiro. Diálogos-Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História. V16, n.2, p.707-738, 2012. MACHADO, Maria Helena. Crime e escravidão: Trabalho, Luta e Resistência nas Lavouras Paulistas (1830-1888). Edusp. 2022. SILVA, Eduardo; REIS, João José. Negociação e Conflito: A resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Palavras-chave

Jongo escravidão fazendas resistencia
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