“ORLANDO, MINHA BIOGRAFIA POLÍTICA”: UMA ANÁLISE TEÓRICA SOBRE CINEMA COMO TESTEMUNHO A PARTIR DO DOCUMENTÁRIO-FICÇÃO DE PAUL B. PRECIADO (2023)

COSMO MEL ESTANISLAU DAHER FERREIRA

Apresentador(es): COSMO MEL ESTANISLAU DAHER FERREIRA

Orientador(es): PEDRO SPINOLA PEREIRA CALDAS


Área temática: HISTÓRIA

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

A pesquisa tem como ponto de partida a leitura do romance Orlando, de Virginia Woolf, e sua reinterpretação no documentário-ficção Orlando, minha biografia política (2023), dirigido por Paul B. Preciado. A partir desse diálogo entre literatura e cinema, busca-se refletir sobre os limites entre realidade e ficção, bem como sobre a permanência das obras por meio de diferentes processos de tradução. Inspirada no conceito de Walter Benjamin em A tarefa do tradutor, a investigação entende o filme não como uma adaptação integral, mas como uma transposição fragmentada da obra de Woolf, que garante sua sobrevivência e atualização em outro contexto histórico. Nesse gesto, Preciado transforma o filme em uma homenagem e, simultaneamente, em uma biografia política, que incorpora tanto sua própria experiência quanto as vivências de corpos que escapam ao binarismo de gênero. Para pensar esses testemunhos, recorreu-se ao conceito de “testemunha moral” desenvolvido por Aleida Assmann, que enfatiza a sobrevivência e a missão pela verdade em um contexto de silenciamento ou invisibilização. Tal perspectiva se articula com o que Preciado denomina de “era farmacopornográfica”, marcada pelo controle dos corpos e dos desejos através da indústria farmacêutica e da pornografia, reforçando a lógica binária do sexo-gênero. Essa lógica é exposta, por exemplo, na diferença entre a naturalização do uso de hormônios anticoncepcionais e a dificuldade de acesso à hormonização de corpos trans, revelando como a biopolítica legitima determinados usos do corpo e marginaliza outros. O filme, nesse sentido, constrói-se como um documento de resistência, no qual a narrativa literária de Woolf é costurada a um texto filosófico e aos testemunhos dos atores sobre suas experiências de gênero, apontando para uma imaginação política capaz de propor novas formas de existência. Além disso, a pesquisa aproxima esses debates das reflexões sobre memória coletiva e ilusão biográfica em Pierre Bourdieu, considerando como a literatura, o cinema e a arte em geral participam da constituição de universos simbólicos de pertencimento social. Para fins de síntese, a análise concentrou-se na cena da cirurgia, na qual o próprio Paul Preciado aparece como cirurgião, costurando fotografias sobre o livro de Woolf e retirando dele a frase “a violência era tudo”. Esse gesto é interpretado como símbolo dos limites e da importância da tradutibilidade, ao mesmo tempo em que propõe a possibilidade de existência para além do binarismo de gênero sem a necessidade de violência, seja simbólica, médica ou social. Essa cena condensa as principais questões investigadas: a tradução como sobrevivência, o testemunho moral, a crítica à era farmacopornográfica e a construção de memória coletiva, que se torna central para compreender como literatura, cinema e filosofia se entrelaçam na elaboração de novas formas de vida e imaginação política.

Bibliografia

WOOLF, Virginia. Orlando. Companhia das Letras, 2014. PRECIADO, Paul B. Eu sou o monstro que vos fala: Relatório para uma academia de psicanalistas. Zahar, 2022. PRECIADO, Paul B. Testo junkie: Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. Zahar, 2023. PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual: Práticas subversivas de identidade sexual. Zahar, 2022. PRECIADO, Paul B. Pornotopia - PLAYBOY e a invencao da sexualidade multimídia. N1- edições, 2020. FERRO, Marc. O filme: uma contra-análise da sociedade? IN: Cinema e História. Paz e Terra, 2010, p.25-48. LACAPRA, Dominick. O que é história? O que é literatura? IN: Compreender Outros: Povos, animais, passados. Autêntica, 2023, p. 197-226. ASSMANN, Aleida. Quatro tipos fundamentais do ato testemunhal. IN: Testemunho e escrita da história: Da Grande Guerra à pandemia da Covid-19. Letra e Voz, 2023, p.19-36. BENJAMIN, Walter. A Tarefa do tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. FALE-UFMG, 2008.

Palavras-chave

testemunho tradução gênero memória cinema paul preciado virginia woolf walter benjamin
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