Orientador(es): JULIANA BASTOS MARQUES
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
Desde 2021, o romance "A Canção de Aquiles" de Madeline Miller atingiu novos patamares de popularidade e vendas graças ao advento de redes sociais como TikTok, estabelecendo uma nova tendência comercial e editorial de "reescrita" da Antiguidade Clássica com o intuito de subverter suas hierarquias patriarcais através do protagonismo de figuras secundárias da literatura clássica. Com isso em mente, a pesquisa buscou estudar a recepção do personagem homérico de Aquiles no romance, visando compreender primeiramente as mudanças feitas em Aquiles por Miller e, posteriormente, as complexidades dessa recepção clássica popularizada pelo romance. Para tal, foi utilizado da análise comparativa feita por Erich Auerbach entre os heróis homéricos e os heróis bíblicos no seu ensaio "A Cicatriz de Ulisses" como um conceito heurístico, com auxílio do conceito de "masculinidade hegemônica" trabalhado por Thiago de Melo Cordeiro além do arcabouço conceitual dentro da área de Recepção Clássica, com foco especial à Ika Willis e seu engajamento com recepção clássica dentro da cultura popular. A pesquisa concluiu que a figura de Aquiles de Madeline Miller desenvolve-se no decorrer da narrativa rumo à sua versão na Ilíada de Homero, caracterizada através de uma masculinidade hegemônica considerada sistêmica ao contexto de Aquiles e vista sob uma perspectiva contemporânea e negativa. Esse desenvolvimento coloca Aquiles mais próximo dos heróis bíblicos do que dos homéricos, seguindo as delimitações de Erich Auerbach, caracterizando-o com passado, devir e reações pessoais aos acontecimentos em seus arredores, dentro de uma perspectiva contemporânea de narrativa moldada pela influência dos heróis bíblicos e do gênero do romance. Finalmente, conclui-se que a recepção clássica crítica feita por Miller reconhece os aspectos autoritários e elitistas da Antiguidade Clássica mas, ao mesmo tempo, busca redimi-los através de um uso “subversivo” da Antiguidade com o foco na relação romântica entre Pátroclo e Aquiles, elaborada com a intenção de ilustrar um romance homossexual para seus leitores contemporâneos, e o arco de decaimento do herói grego através da masculinidade hegemônica ilustrada anteriormente. Através dessa recepção, a pesquisa argumenta que Miller introduz elementos contemporâneos em Aquiles, observáveis pela lente de Auerbach, inseridos dentro de seu contexto temporal e sensibilidades literárias com uma recepção clássica que busca uma ressignificação subversiva (ou apresentar uma leitura alternativa) do épico homérico para leitores "queer" do século XXI, mas que, finalmente, reforça o poder de cultural elitista dos Clássicos através de um apagamento dos aspectos excludentes das representações de gênero na Ilíada.
AUERBACH, Erich. A Cicatriz de Ulisses. In: Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Editora Perspectiva S/A, 2021. CORDEIRO, Tiago de Melo. Of Gods and Men: Defining Hegemonic Masculinity in Madeline Miller’s The Song of Achilles and Circe. Nunt. Antiquus, Belo Horizonte, v. 21, n. 1, p. 1-32, 2025. RANGER, Holly. Critical Reception Studies: The White Feminism of Feminist Reception Scholarship. In: Critical Ancient World Studies. Routledge, 2023. p. 213-233.