Orientador(es): GUSTAVO NAVES FRANCO
Área temática: LETRAS
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: Discente de iniciação científica sem bolsa
A literatura de terror constitui um campo fértil para a investigação das imagens do inconsciente, em especial através da psicologia analítica de C. G. Jung. Entre os principais nomes do gênero, Clive Barker consolidou-se como escritor e cineasta de referência, no entanto, sua obra permanece pouco explorada no meio acadêmico literário brasileiro. O conto Nas Montanhas, As Cidades, publicado em 1984 no primeiro volume da coletânea Livros de Sangue, é um exemplo da ousadia estética predominante na obra do autor. Ao articular o grotesco corporal com questões de identidade, violência e coletividade, o texto revela-se um objeto privilegiado para análise literária e psicanalítica. O objetivo deste trabalho é investigar como Barker traduz, em imagens literárias, o conceito junguiano de sombra, ao mesmo tempo em que propõe discutir como o conto reflete o contexto cultural e chamar atenção para a contribuição do autor para a literatura. Busca-se evidenciar que, para além do entretenimento ou do escândalo estético, sua obra constrói metáforas potentes para pensar a coletividade e a análise do inconsciente representado na escrita. Em conseguinte, também se espera que a pesquisa contribua para estabelecer novas discussões acerca da obra do autor. A metodologia consiste na leitura crítica do conto e, da obra de Barker de modo geral, em diálogo com a teoria da psicanálise, sobretudo o conceito de sombra. São usadas como suporte extra as reflexões teóricas sobre a figura do monstro como produto cultural. A análise literária centra-se em imagens fundamentais do enredo, como os colossos formados por corpos humanos em um duelo ritualístico e o destino trágico dos protagonistas, Mick e Judd. O enredo centra-se na deterioração do relacionamento dos protagonistas, que, ao fazerem uma viagem juntos, se deparam com um rito cultural no qual duas cidades inteiras, Popolac e Podujevo, se fundem em colossos humanos gigantes que travam batalhas brutais, levando a um desfecho trágico e grotesco. Apoiada do viés teórico, a leitura aponta o corpo-monstro como símbolo de projeção da sombra coletiva, na qual a individualidade se dissolve em um organismo violento e desmedido. Intensificando essa imagem, a narrativa termina em duas direções opostas: Judd, morto e abandonado, encarna o esquecimento e a precariedade da vida diante da violência coletiva; Mick, por sua vez, seduzido pelo esplendor grotesco de Popolac, se entrega ao monstro, sendo absorvido pela massa anônima. Conclui-se que Nas Montanhas, As Cidades revela a potência estética e teórica da obra de Barker, demonstrando como o terror pode ser um espaço de elaboração das dimensões sombrias da experiência humana. Sua visão estética, que associa o horror a descrições esplendorosas, segue um viés singular de interpretação do gênero e torna explícito o caráter revelador da figura do monstro. Apesar de trazer imagens assombrosas em suas proporções titânicas, o autor trata de horrores presentes nos recessos ignorados do cotidiano.
BARKER, Clive. Nas Montanhas, As Cidades. In: BARKER, Clive. (Aut.). Livros de Sangue. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2020. p. 190-225. COHEN, Jeffrey Jerome. Monster Culture: Seven Theses. In: COHEN, Jeffrey Jerome. (Aut.). Monster Theory: Reading Culture. 1 ed. EUA: University of Minnesota Press, 1996. JUNG, Carl Gustav. Aion: Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2014.