ARQUIVOS INSURGENTES: FABULAÇÃO CRÍTICA E A RECONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA COLETIVA NAS OBRAS DE ROSANA PAULINO.

DEBORA OMENA DE PAIVA ALMEIDA

Apresentador(es): DEBORA OMENA DE PAIVA ALMEIDA

Orientador(es): LÚCIA RICOTTA VILELA PINTO


Área temática: LETRAS

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

A pesquisa analisa os recursos plásticos da artista visual Rosana Paulino, tendo como exemplo principal a instalação Assentamento. A costura desalinhada, o bordado de símbolos e o uso de imagens coloniais são articulados na pesquisa em diálogo com a crítica de Saidiya Hartman aos arquivos institucionais, evidenciando como a arte pode constituir uma contranarrativa capaz de reinscrever corpos negros no espaço representacional da história. No ensaio Vênus em dois atos, Hartman propõe uma forma radical de escrita diante das lacunas dos arquivos coloniais, elaborando o conceito de critical fabulation ou fabulação crítica. Este gesto ético, poético e político emerge frente ao silêncio e à violência dos arquivos institucionais que perpetuaram as “ficções da história”. Paulino opera com os mesmos tipos de arquivos violentos problematizados por Hartman — imagens coloniais, científicas e disciplinadoras —, que ela reinscreve, rasura, redesenha e fabula. Assim, sua prática desloca os regimes de representação, instaurando um campo de resistência simbólica. Ao tensionar a herança colonial, a artista cria uma memória contra-hegemônica que questiona tanto as formas de transmissão do trauma quanto os modos de inscrição da experiência negra na história oficial. Sua obra expõe a materialidade da violência e, pela via da costura e do bordado, rearticula vínculos de memória, sobrevivência e continuidade. A fabulação interrompe a linearidade do arquivo colonial, reinscrevendo corpos apagados e abrindo possibilidades de cura e resistência. Nesse processo, a fabulação crítica torna-se ferramenta para pensar os limites do arquivo e para vislumbrar outras narrativas. Contra a visualidade dominante — construída pela arte, mídia e arquivos coloniais na difusão de estereótipos racistas e da subalternização — emerge a contravisualidade, um olhar insurgente que revela o que está fora do enquadramento oficial e questiona quem tem o poder de representar e como essas representações sustentam estruturas de opressão. Paulino reinscreve imagens coloniais e eugenistas, transformando registros desumanizadores em composições que afirmam corpos negros como sujeitos vivos, portadores de desejo, dor e ancestralidade. Assim, evidencia-se como os arquivos, antes vistos como registros neutros, podem ser mobilizados criticamente para instaurar novas formas de ver e sentir. A partir do diálogo com Hartman, evidencia-se como arte e teoria convergem na construção de contranarrativas que reposicionam corpos negros, abrindo espaço para uma ética da memória que resiste à colonialidade. Conclui-se que a poética de Paulino exemplifica uma prática arquivística insurgente, capaz de expor a violência inscrita nos documentos coloniais e, simultaneamente, de propor novas formas de presença histórica.

Bibliografia

FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. HARTMAN, S. Vênus em dois atos. Revista Eco-Pós, [S. l.], v. 23, n. 3, p. 12–33, 2020. DOI: 10.29146/eco-pos.v23i3.27640. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/27640. Acesso em: 15 set. 2025. POLIDORI ZAMPERETTI, Maristani; LOPES DE SOUZA, Fabiana. CONTRAVISUALIDADES NA ARTE CONTEMPORÂNEA:: dadosfera em tempos de pandemia. Revista da FUNDARTE, [S. l.], v. 52, n. 52, 2022. DOI: 10.19179/rdf.v52i52.1145. Disponível em: https://seer.fundarte.rs.gov.br/index.php/RevistadaFundarte/article/view/1145. Acesso em: 15 set. 2025.

Palavras-chave

Virada arquivística; contravisualidade; fabulação crítica; Rosana Paulino
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