Orientador(es): JULIANA BASTOS MARQUES
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO ORAL
Bolsa: PIBIC
O presente trabalho parte da constatação de que as cerimônias de abertura dos Jogos Olímpicos modernos constituem espaços privilegiados de construção e exibição de identidades nacionais. Nesse contexto, a Antiguidade clássica ocupa um papel central, sendo constantemente invocada como recurso de legitimação cultural, histórica e política. A escolha de Atenas 2004 e Paris 2024 como objetos de análise justifica-se pelo fato de que ambas mobilizaram referências ao passado greco-romano, ainda que de formas distintas e condicionadas por seus respectivos contextos sociais e políticos. Enquanto a Grécia buscou afirmar-se como herdeira direta de uma tradição gloriosa, a França articulou a herança clássica a debates contemporâneos em torno da diversidade e da pluralidade, revelando a maleabilidade dos símbolos do passado. O objetivo deste trabalho é compreender de que modo as cerimônias de abertura desses dois megaeventos utilizaram a recepção da Antiguidade como instrumento de construção de identidade nacional e de projeção internacional. Para isso, a pesquisa procura identificar continuidades e rupturas na maneira como o passado é ressignificado, avaliando como essas narrativas dialogam tanto com o imaginário interno quanto com a opinião pública mundial. A metodologia adotada combina levantamento descritivo das cenas das cerimônias de abertura com análise comparada, articulando aportes teóricos da história cultural, dos estudos de recepção e da reflexão sobre os megaeventos esportivos. Nesse sentido, foram mobilizadas as contribuições de Charles Martindale, que entende a recepção como um processo dinâmico de fusão entre passado e presente, e de Antoine Compagnon, cuja crítica à noção de “leitor competente” evidencia as tensões entre intenção autoral, texto e leitor. A articulação desses referenciais permitiu analisar a maneira como as mensagens projetadas pelos espetáculos dialogam com a diversidade de leituras possíveis, que nunca são totalmente controláveis. Entre os resultados alcançados, destaca-se que a cerimônia de Atenas 2004 apresentou-se como reafirmação de uma identidade ancorada em um cânone já consolidado, projetando a imagem de um país herdeiro da civilização ocidental, embora em contraste com a crise econômica subsequente que enfraqueceu essa narrativa. Já Paris 2024 se apoiou em uma recepção marcada pela contestação, tensionando símbolos clássicos a partir de leituras ligadas à inclusão e à diversidade, o que gerou interpretações divergentes e intensos debates na mídia e nas redes sociais. Como considerações finais, o estudo demonstra que a recepção da Antiguidade nas cerimônias de abertura não é neutra nem estática, mas uma construção em constante disputa, que depende das condições históricas e políticas do presente. Espera-se que a pesquisa contribua para o aprofundamento dos estudos sobre a relação entre esporte, identidade nacional e memória cultural, abrindo espaço para investigações futuras sobre a recepção da Antiguidade em outros contextos olímpicos ou mesmo em eventos internacionais que mobilizam narrativas históricas para legitimar identidades coletivas.
MARTINDALE, Charles. Five concepts in search of an author: suite. In: Redeeming the text. Latin poetry and the hermeneutics of reception. Cambridge: Cambridge University Press, 1993, pp. 1-34. COMPAGNON, Antoine. O leitor. In: O demônio da teoria. Literatura e senso comum. Belo Horizonte/São Paulo: EdUFMG/Humanitas, 1999, p. 137-161.