Orientador(es): LÚCIA RICOTTA VILELA PINTO
Área temática: LETRAS
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
Este projeto de pesquisa investiga como autoras negras brasileiras contemporâneas mobilizam a fabulação crítica, tal como formulada por Saidiya Hartman, como gesto interartístico e contravisual capaz de reimaginar subjetividades negras silenciadas pelos arquivos coloniais. Em sua segunda fase, a pesquisa amplia seu escopo teórico e metodológico ao incorporar a noção de contravisualidade, a partir de Frantz Fanon, compreendendo a imago racializada como prisão imposta pelo olhar colonial, bem como a ideia de imagem interior proposta por Rainer Maria Rilke. A fabulação crítica é aqui entendida como prática interartística que transita entre literatura, imagem, corpo e silêncio, e que desafia os limites formais da narrativa tradicional. O projeto dialoga ainda com os conceitos de "tempo espiralar", de Leda Maria Martins, "coralidade", de Flora Süssekind, e as abordagens de Natalia Brizuela, Florencia Garramuño e Marilene Felinto, para compreender a escrita como espaço de pluralidade, resistência e criação. Entre os principais objetivos da pesquisa estão: analisar a fabulação crítica como método de reinscrição histórica nas obras de Hartman, Gonçalves, Cruz e Felinto; investigar a construção de imagens insurgentes e contraimagens na literatura; e compreender a articulação entre texto, corpo, imagem e performance como prática estética e política. A metodologia adota uma abordagem qualitativa, com análise comparativa de obras literárias e ensaísticas, destacando a linguagem como tecnologia de racialização e a visualidade como campo de disputa ontológica. A leitura de "Peles Negras, Máscaras Brancas", de Fanon, trouxe novas camadas à análise, permitindo pensar a visualidade racializada como construção colonial. Obras como "Coros, contrários, massa", de Süssekind, e "Performances do tempo espiralar", de Leda Maria Martins, ampliam a percepção da escrita como experiência rítmica e coral. Já "Corsária", de Marilene Felinto, contribui para a expansão da análise, incorporando mito, sonho e linguagem poética. Os resultados parciais indicam que as autoras mobilizam a fabulação crítica como gesto de contraimagem e de invenção sensível do mundo, em que a palavra opera visualidades outras, não capturáveis pelo olhar colonial. A literatura aparece como campo de experimentação onde memória, corpo, tempo e linguagem se entrelaçam. Assim, a noção de contravisualidade consolida-se como eixo fundamental da pesquisa, articulando imagem, texto e subjetividade. A conclusão reafirma a potência da fabulação crítica como ferramenta de reinvenção do arquivo e da memória, compreendendo-a como prática estética, política e ética que desafia o silenciamento e reivindica o direito de fabular o que foi negado. Ao longo da pesquisa, essa fabulação foi sendo entendida não apenas como gesto literário, mas como uma prática interartística, que opera entre texto, imagem, corpo e performance, extrapolando, assim, os limites tradicionais da literatura. Trata-se, enfim, de um gesto insurgente que constrói novas formas de imaginar, narrar e resistir, em que ver, escrever e fabular se confundem como práticas de sobrevivência e criação de mundos possíveis. O projeto prevê, até abril de 2026, atividades como releitura analítica do corpus, redação de artigo científico, participação em eventos acadêmicos e sistematização dos resultados finais, culminando com o fechamento do ciclo de pesquisa e seu possível desdobramento futuro.
BRIZUELA, Natalia. Depois da imagem. Campinas: Papéis Selvagens, 2020. CRUZ, Eliana Alves. Água de barrela. Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2016. FANON, Frantz. Peles negras, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008. FELINTO, Marilene. Corsária. São Paulo: Nós, 2022. GARRAMUÑO, Florencia. A experiência estética e seus limites. Campinas: Papéis Selvagens, 2014. GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2010. HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. São Paulo: Fósforo, 2022. HOOKS, bell. Black Looks: Race and Representation. Boston: South End Press, 1992. MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. São Paulo: Perspectiva, 2021. RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Tradução de Erlon José Paschoal. São Paulo: Antofágica, 2024 SUSSEKIND, Flora. Coros, contrários, massa. Rio de Janeiro: 7Letras, 2020.