A CONSTRUÇÃO SIMBÓLICA DA DITADURA E O IMPACTO DISCURSIVO NA ESFERA CIVIL: AÇÕES DE ESTADO NO ÂMBITO CULTURAL

AMANDA APARECIDA CERQUEIRA TOLEDO

Apresentador(es): AMANDA APARECIDA CERQUEIRA TOLEDO

Orientador(es): JOÃO PAULO MACEDO E CASTRO


Área temática: CIÊNCIAS SOCIAIS

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

Em seu livro Negara: O Estado teatro no século XIX, Clifford Geertz faz uma análise extensa do Estado Balinês e sua dimensão simbólica e performática. Seu estudo elucida que a pompa não funcionaria como mero adorno, mas constitui uma dimensão essencial do Estado, manifestando-se nas performances que o fazem aparecer em cena. Ela é, portanto, parte integrante e necessária para o mantimento da ordem social, o funcionamento dos aparelhos estatais e seus agentes. Sabendo disso, o Estado Balinês servia a pompa, entrelaçando cultura, política, religiosidade e performance de forma a orquestrar grandes comemorações que fortaleciam o senso de pertencimento dos cidadãos e a política da corte. Nesse viés, organiza-se uma pesquisa de consulta bibliográfica a partir da conjuntura da ditadura civil militar brasileira (1964-1985), visando analisar as ações do regime voltadas à espetacularização de preceitos e a mobilização de afetos civis. Entendendo que tal regime surge em meio ao golpe de 1964, apoiado por um significativo preparo de propaganda, unida a mídia e iniciativa privada. A cultura e as comemorações aparecem como um dos principais meios para alcançar a legitimidade do governo, ao mesmo tempo que celebram as conquistas dos então líderes políticos e constroem uma identidade nacional única. Diferente do Estado de Geertz - o Negara -, o Estado ditatorial brasileiro não servia a pompa, ou era um dispositivo de seus rituais. Porém, ele fazia uso dessa dimensão para apoiar seu poder e angariar consenso. Pompa e performance eram ferramentas instrumentalizadas em prol do regime, voltadas ao meio cívico e a servir ideais políticos, orquestrando uma dança entre o que se tinha de palpável e o imaginário. Nesse sentido, como objeto central aqui esmiuçado, foi escolhido um evento significativo, que aglutinou os mesmos elementos - história, política, cultura, vida e morte - que no Negara compunham o espetáculo do Estado e reverberou a representação do ápice da ditadura sob os traços do progresso: O Sesquicentenário da Independência do Brasil, organizado pelo governo de Médici em 1972. Esta comemoração, de particular alcance e impacto, permitiu compreender a manifestação simbólica e material dos valores perpetuados durante o regime. Dirigida a um público deslumbrado pelos discursos de avanço tecnológico e político, ao mesmo tempo em que fortalecia a narrativa ufanista e a ligação com a então ex-metrópole, a festa resplandeceu pelos diferentes estados brasileiros, tendo como principal elemento a vinda dos restos mortais do chamado herói da independência D. Pedro I - recebido com alegria em meio ao fúnebre. Também sob um arquétipo, Médici marcou presença junto ao antigo imperador, mostrando a força da nação presente enquanto participava de inaugurações e eventos do Brasil do futuro. Tudo chamava as atenções ao patriotismo e mobilizava diferentes esferas sociais, submergindo nos ânimos públicos uma elaborada estrutura de monitoramento e hierarquização.

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. Curso de 18 de janeiro de 1990. In: BOURDIEU, Pierre. Sobre o Estado. São Paulo: Companhia das letras, 2014, p. 29-58. CORDEIRO, Janaina Martins. A ditadura em tempos de milagre: Comemorações, orgulho e consentimento. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015. GEERTZ, Clifford. “Introdução: Bali e o Método Histórico”; “Definição Política: As Fontes da Ordem”; “Conclusão: Bali e a Teoria Política”. In: GEERTZ, Clifford. Negara: O Estado Teatro no Século XIX. Lisboa: Difel, 1991. págs. 13-21; 23-39; 153-171.

Palavras-chave

Performance Cultura Estado Ditadura
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