Orientador(es): CARLA DA SILVA MIGUELOTE
Área temática: LETRAS
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
O trabalho se insere nos estudos de literatura, gênero e sexualidade, tomando como objeto o romance Ara, de Ana Luísa Amaral. A pesquisa parte das teorias feminista e queer para pensar como o desejo não-normativo é representado na obra, a fim de refletir como a escrita literária pode tensionar normas sociais e abrir espaço para outras formas de viver e narrar o desejo. Então, neste trabalho, é investigada a alternância entre medo e coragem na vivência do desejo não-normativo no romance Ara, a partir de teoria queer e feminista. A metodologia da pesquisa consistiu na leitura crítica do romance Ara, de Ana Luisa Amaral, junto à leitura de textos teóricos, tais como: capítulos do livro Viver uma vida feminista, de Sara Ahmed, o texto "Heterossexualidade Compulsória", de Adrianne Rich, o livro Irmã Outsider, de Audre Lorde, o livro O Riso da Medusa, de Helene Cixous. A partir da articulação do romance com os conceitos fundamentais da teoria feminista, especialmente aqueles formulados por Sara Ahmed, Adrienne Rich, Audre Lorde e Hélène Cixous, identificamos no romance a materialização de linhas de desejo, na acepção de Ahmed, ao narrar percursos não normativos. A obra também se insere no continuum lésbico, descrito por Rich, ao valorizar experiências partilhadas entre mulheres como forma de resistência ao patriarcado. O diálogo com Audre Lorde e Cixous evidenciou a potência da escrita feminina como gesto político e como abertura para a expressão do desejo. As conclusões mostram como a teoria pode expandir a leitura de um romance, e como Ara, de Ana Luísa Amaral, retrata a voz de um corpo dissonante que encontrou lugar na literatura e na poesia para ser o que não pôde em realidade. A linguagem de Ara se desdobra em duas vozes, como se a personagem narradora dialogasse consigo mesma. Desta forma, debate o próprio desejo, o enfrenta e o aceita. Esse jogo de vozes evidencia uma luta interna, marcada pela autorrepressão e pelo anseio de libertação. O conceito de escrita feminina, de Cixous, me fez compreender a linguagem de Ana Luísa Amaral como um recurso para afirmar aquilo que socialmente era reprimido. A teoria de Cixous remete a uma escrita que valoriza características associadas às mulheres, mas que não necessariamente precisariam ser essencializadas. No ensaio “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”, Adrienne Rich afirma a importância da visibilidade lésbica como eixo fundamental para o feminismo. Ao destacar a necessidade de reconhecer realidades que desafiam as normas sociais, Rich dialoga com o feminismo interseccional de Ahmed. A tentativa de pertencimento, muitas vezes, leva mulheres a performar uma feminilidade aceitável pela sociedade, o que pode resultar em comportamentos ou até em relacionamentos de fachada, como se observa no romance de Amaral.
AHMED, Sara. Viver uma vida feminista. Tradução de Jamille Pinheiro Dias, Sheyla Miranda e Mariana Ruggieri. São Paulo: Ubu, 2022. AMARAL, Ana Luísa. Ara. Lisboa: Sextante Editora, 2013 CIXOUS, Hélène. O riso da Medusa. Tradução de Myriam Ávila, Marina Appenzeller e Augusto Guimarães. Rio de Janeiro: DIFEL, 1994. LORDE, Audre. Irmã Outsider. São Paulo: Editora Autêntica, 2019. RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas: estudos gays, gêneros e sexualidades, Natal, v. 4, n. 5, p. 17-44, jan./jun. 2010.