Orientador(es): CLAUDIA REGINA ANDRADE DOS SANTOS
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
A presente pesquisa se dá em continuidade daquela realizada no ano anterior, onde foram auferidos – a partir de pesquisas na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional – fontes para analisar a trajetória do abolicionista e republicano Antônio Ennes de Souza. Dentro desta pesquisa identificamos sua atuação – dentre outras a partir da proclamação da República – em comícios organizados em áreas rurais do município e arredores do Rio de Janeiro onde era mobilizada a população local para reivindicar melhorias para os lavradores da região e demandar por acesso à terra a qual trabalhavam e viviam. Identificamos sua trajetória – a partir principalmente da década de 1880 – dentro do contexto da abolição e do ativismo pela República, o qual representam uma militância única que representa diversos projetos concomitantes defendidos por este movimento social que se deu na última década do Império (SANTOS, 2023). Com a abolição realizada no treze de maio, diversos projetos ficaram de fora e não foram realizados pelo último gabinete imperial, o que gerou sua deposição pelo golpe militar no quinze de novembro. Com o advento da República no país, tais projetos – dentre eles o acesso à terra, a defesa do fim do latifúndio, da pequena propriedade e o comércio diverso e interno – foram projetados para serem realizados já no Governo Provisório de Deodoro. Entretanto, as forças díspares que estavam lutando – cada um por seu projeto republicano – impossibilitaram, naquele momento, a realização de tais projetos. A partir da pesquisa em jornais, percebemos a atuação de Ennes de Souza em constante mudança de acordo com a conjuntura política vigente, a qual se encontra no centro do método de análise da pesquisa. As conjunturas a curto e médio prazo, especialmente nesta primeira década de República, auxilia na compreensão da trajetória de Ennes de Souza, por onde ele se encontrava e lança luz à forma como ele agia em determinadas circunstâncias de acordo com o que estava posto a ele. Portanto, a conjuntura política e a reorganização de governos e alianças (VISCARDI, 2019) se mostra indispensável para entender a questão dos Comícios Rurais e suas demandas, bem como estas – lançadas à luz da contextualização –, auxiliam na compreensão do micro ao macro e vice versa. Desta forma, os resultados encontrados neste ano de pesquisa dizem respeito às conexões e formas de agir que Ennes de Souza empreendia em cada uma das conjunturas, especialmente nos dois governos militares e no primeiro civil que conduzem o foco da pesquisa. Em um primeiro momento, a aproximação com Benjamin Constant e sua reforma educacional – interligada às Escolas Rurais com o objetivo de qualificar a mão de obra dos lavradores –, bem como o setor por ele representado dentro do Governo Provisório conferem neste momento uma tentativa de garantir apoio institucional para seu projeto de República, compartilhado por um setor negligenciado desta. Em seguida, no governo Floriano, o apoio a este se intensifica através da promessa deste de se opor a elites locais como os latifundiários paulistas, e portanto, os comícios se expandem e ganham certa representação institucional em municipalidades. Graças ao apoio a Floriano na esperança de seus projetos educacionais e agrários irem adiante, bem como seu "radicalismo" republicano notório, Ennes de Souza passou a ser percebido como "Jacobino", termo polissêmico que deve ser contextualizado.
- QUEIROZ, Suely R.R. de. Os Radicais da República. São Paulo: Brasiliense, 1986; - SANTOS, Cláudia Regina Andrade. Disputas Políticas Pela Abolição no Brasil. Nas senzalas, nos partidos, na imprensa e nas ruas. Petrópolis: Vozes, 2023; - VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. O Teatro das Oligarquias: uma revisão da “política do café com leite”. Belo Horizonte: Fino Traço, 2019.