ENTRE HERÓIS E MONSTROS: UMA ANÁLISE DOS CONFLITOS NARRATIVOS NA MEMÓRIA DA DITADURA MILITAR (1964-1985)

RAQUEL BOUILLET

Apresentador(es): RAQUEL BOUILLET

Orientador(es): JOÃO PAULO MACEDO E CASTRO


Área temática: CIÊNCIAS SOCIAIS

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

Para entender a memória da ditadura como um campo em disputa, torna-se relevante a compreensão dos diferentes discursos que a compõem. Em um primeiro momento, observou-se que diferentes significações operam com categorias especificas. Estas, que organizam e classificam os sujeitos sociais. Com isso foi possível definir estes sujeitos sociais em dois grupos. Inicialmente com o termo perpetradores, classificam-se os diferentes agentes estatais envolvidos em atos de tortura, desaparecimento, assassinato dos opositores ao sistema. Já o termo resistentes identifica todos aqueles vitimados de alguma forma pelas ações dos agentes estatais. Estes dois léxicos aparecem de formas opostas e complementares, ordenando e organizando as diferentes narrativas sobre a ditadura militar. Tendo isto em vista, o objetivo deste trabalho foi analisar essas diferentes memórias imputadas nesses discursos. Investigando como determinadas categorias foram engendradas em diferentes campos discursivos sobre a Ditadura Militar. Reorganizando as suas significações políticas representadas em cada uma destas narrativas. A pesquisa teve início com a sistematização do depoimento do Coronel Paulo Malhães à CNV. As informações extraídas foram organizadas em categorias analíticas — como locais de atuação, hierarquias, vítimas, etc. — que permitiram identificar as redes de relações forjadas pelo coronel ao longo de sua atuação como agente da repressão. A análise do discurso de Paulo Malhães permitiu perceber como se constituía a narrativa repressiva em relação àqueles que se opunham ao sistema. A partir de um ideal de pátria e nação, tornava-se necessário eliminar os chamados inimigos da ordem e da segurança nacional. Nesse enquadramento, o que em outras narrativas se configurava como “resistência” à dominação passa a ser indexado sob a figura do 'terrorista' (comunistas, subversivos, inimigos da pátria, etc.). Essas categorias orientaram a lógica militar, permitindo que, ao nomear opositores como terroristas e caracterizar suas ações como ataques à nação, fosse legítimo o endurecimento das medidas repressivas. Afinal, ao acusar um inimigo político sobre a ode de grande periculosidade, justificava-se a adoção da força de exceção e o fortalecimento do aparato repressivo. Por outro lado, o discurso da resistência construiu a oposição ao regime. Ao se afirmarem como vítimas da repressão, os resistentes também mobilizaram a ideia de nação, mas a partir de valores contrários ao projeto militar. Assim, acusavam a ditadura de instaurar o terror e retratavam seus agentes como monstros. Nesse embate discursivo, o que esteve em jogo foi a definição legítima da nação e a disputa pela memória política do período. Numa guerra simbólica, narrativa e factual, a Ditadura Militar foi forjada em diferentes interpretações sobre si. A partir disso, o trabalho buscou aprofundar como os discursos – apoiados em categorias acusatórias – foram representativos e construíram memórias dissonantes e conflitivas.

Bibliografia

CEV/RJ. Depoimento de Paulo Malhães. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, 2014. LENTZ, Rodrigo. República de Segurança Nacional: Militares e Política no Brasil. 1 Ed. São Paulo, SP: Expressão Popular, 2022. PEDRETTI, Lucas. A Transição Inacabada. São Paulo: Cia das Letras, 2024.

Palavras-chave

Ditadura Narrativas Conflitos Monstros Heróis Perpretradores
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