Orientador(es): CARLA PONTES DE ALBUQUERQUE
Área temática: SAÚDE COLETIVA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
Este trabalho integra o projeto "Cartografias em Decolonialidade e Descolonização na Saúde e Educação" e toma como campo de análise a Casa das Pretas, localizada no centro do Rio de Janeiro. Esse espaço foi escolhido pela relevância social e política que representa enquanto território de resistência, acolhimento e produção de saberes, em especial para mulheres negras que ali se reúnem em torno de atividades formativas, culturais e de cuidado. Partiu-se do reconhecimento de que a formação em saúde, ainda fortemente marcada por referenciais eurocêntricos, necessita ser tensionada por experiências comunitárias que dão visibilidade a epistemologias contra-hegemônicas e práticas que se constroem na luta cotidiana pela vida. O objetivo foi elaborar uma cartografia teórico-vivencial capaz de articular a revisão bibliográfica com o acompanhamento de práticas concretas, de modo a compreender como se dão, no cotidiano, formas de resistência que dialogam com a saúde e a educação. A metodologia incluiu a atualização da literatura especializada, com destaque para autoras e autores negros que problematizam a colonialidade e suas implicações, além de visitas semanais às atividades do curso de corte e costura da Casa das Pretas. Durante esses encontros foram registradas narrativas, observadas dinâmicas coletivas e produzidos diários de campo, compondo material que, posteriormente, foi sistematizado e interpretado em diálogo com a bibliografia estudada. Os resultados indicam que o curso de costura, longe de se restringir ao ensino técnico, atua como dispositivo de fortalecimento coletivo e individual, no qual emergem redes de apoio, trocas entre gerações e possibilidades de ressignificação de experiências atravessadas pela colonialidade. Evidenciou-se que práticas desenvolvidas no espaço dão corpo a conceitos como quilombismo, escrevivência e memória decolonial, demonstrando a potência das ações comunitárias na construção de alternativas de cuidado. A análise aponta ainda que a aproximação entre universidade e territórios populares amplia a compreensão de saúde, rompe fronteiras entre conhecimento acadêmico e saberes tradicionais e contribui para deslocamentos epistemológicos necessários à formação profissional. Como desdobramentos, a pesquisa prevê a elaboração de um artigo científico sobre a evolução das práticas de cuidado voltados para a saúde negra, a continuidade da produção cartográfica e a socialização dos resultados em eventos acadêmicos e comunitários. Considera-se que experiências como a da Casa das Pretas reafirmam a importância da ciência pública em diálogo com territórios de resistência, além de apontarem caminhos para práticas formativas mais críticas, justas e comprometidas com a transformação social.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seu subtexto. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Izabela Rodrigues (orgs.). Escrevivência e a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. p. 26-47. NASCIMENTO, Abdias. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. São Paulo: Vozes, 1980.