Orientador(es): PEDRO SPINOLA PEREIRA CALDAS
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO ORAL
Bolsa: PIBIC
O presente estudo foi motivado por uma percepção, promovida pela análise dos diários de Victor Klemperer (1999) - filólogo alemão lido como judeu durante o período da Alemanha nazista (1933-1945) e cujos escritos são vestígios daquele contexto -, da repetição das alusões ao medo como forma de pensar o presente e futuro, ocorridas em 1941. Sabendo da possível relação entre esse sentimento e as violações sofridas/conhecidas/imaginadas por Klemperer, e tendo como base teórica os conceitos de: desassossego empático (LaCAPRA, 2004, p.140); testemunho (FRIEDLÄNDER, 2012, p.28); e a definição de “campanha de extermínio” como a sistematização e expansão, a partir de 1942, das decisões políticas e meios necessários para a deportação, trabalho forçado e dizimação de judeus e minorias sociais que permaneciam na Alemanha e demais territórios ocupados pelos nazistas (FRIEDLÄNDER, 2012, p.408-409); foi possível formularmos a questão motivadora. Havia registros nos Diários (KLEMPERER, 1999), na cronologia ulterior à guerra e anterior à “campanha de extermínio”- de setembro de 1939 a 1941 - que demonstrassem elaborações de Klemperer sobre as múltiplas violências perpetradas pelos nazistas, principalmente acerca dos assassinatos em massa e deportações que já ocorriam? Através da releitura das entradas na cronologia indicada, investigando também termos e sentimentos que o autor empregava a fim de dar sentidos às múltiplas temporalidades que coexistiam naquele contexto, alguns resultados puderam ser atingidos. Durante a análise, foram identificados: o relato de um prisioneiro do campo de Buchenwald (KLEMPERER, 1999, p.341-342); alterações nas práticas/políticas persecutórias e nos registros destas - consideradas no conjunto arquivístico nomeado “avanço na doença” -, já que as entradas passam a contar, por exemplo, com explanações acerca de ameaças de morte que eram previstas em caso de descumprimento das medidas nazistas (KLEMPERER, 1999, p.303) ou com a dúvida de Klemperer se as ordens impostas indicariam futuras deportações aos judeus (KLEMPERER, 1999, p.285, p.404); as angústias do filólogo em relação a possibilidade de detenção, ida para campos de concentração e fuzilamento (KLEMPERER, 1999, p.281, p.292, p.316); a analogia entre a situação de sua moradia na residência coletiva para judeus e um “campo de concentração de alto nível” (KLEMPERER, 1999, p.315); o registro do que ocorria no centro de extermínio localizado em Pirna (KLEMPERER, 1999, p.350); menções às notícias sobre deportações (KLEMPERER, 1999, p.398, p.400-401); exemplificações sobre mortes em campos de concentração e prisões arbitrárias (KLEMPERER, 1999, p.402, p.409); entre outros. Tendo em vista esses resultados, podemos concluir que não apenas havia o registro das formas de violência simbólicas e físicas, mas que também é possível reconstruir a historicidade dessas partindo dos escritos de Klemperer, de seu testemunho. Para isso, são imprescindíveis escuta, afeto e crítica desejáveis.
FRIEDLÄNDER, Saul. A Alemanha Nazista e os Judeus, volume 2: os anos de extermínio, 1939-1945. São Paulo: Perspectiva, 2012. KLEMPERER, Victor. Os diários de Victor Klemperer: testemunho clandestino de um judeu na Alemanha nazista, 1933-1945. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. LACAPRA, Dominick. Trauma Studies: Its Critics and Vicissitudes. In:______. History in Transit: Experience, Identity, Critical Theory. Ithaca, NY: Cornell University Press, 2004.