"ISTO ALGUM DIA SE HÁ DE ACABAR": AGÊNCIA ESCRAVA E HOMICÍDIO DE SENHORES

ALANA FURTADO DA SILVA

Apresentador(es): ALANA FURTADO DA SILVA

Orientador(es): MARIANA DE AGUIAR FERREIRA MUAZE


Área temática: HISTÓRIA

Modalidade de apresentação: SESSÃO ORAL

Bolsa: PIBIC


Resumo

No fim de julho de 1870, o Barão de Bemposta escapou do disparo de uma arma de fogo. Justino, escravizado que o acompanhava, viu fugir pelo matagal uma pessoa de vestes brancas. As suspeitas sobre o autor da emboscada não foram muito longe. De volta a fazenda, o Barão constatou que apenas um de seus escravos estava ausente: Felix. Natural da Paraíba do Sul, onde viveu seus sessenta anos, Felix foi julgado por tentativa de assassinato e condenado à pena de açoites. Casado, pai de Adelaide e residente na Fazenda do Calçado havia treze anos, confessou no interrogatório que desejava matar o senhor porque estava insatisfeito. A sua insatisfação era plenamente conhecida entre os companheiros, que alertaram o Barão antes da ocorrência do crime. O interessante deste caso que, assim como tantos outros, subverte a ordem senhorial, é que o réu não fazia parte do contingente de vítimas do tráfico interprovincial, nem apresentava uma motivação impulsionada por proteção ou vingança. O réu interpretou o senhor como responsável pela sua condição de escravizado e, para alcançar a liberdade, mirou nele um alvo para suprimir uma vida inteira de cativeiro. A premeditação do crime foi longa. Primeiro, tentou agir em conjunto com Prudêncio na compra da espingarda, no assassinato do Barão de Bemposta e na fuga para São Paulo. Como não conseguiu convencê-lo, seguiu sozinho com o plano, adquirindo a arma de fogo sem que o senhor suspeitasse, aspectos que demonstram um espaço de autonomia. A agência escrava de Felix converge com seus atos de resistência, sobretudo quando encara a tentativa falha de homicídio convicto de suas ações diante de um julgamento que, devido a vigência da pena de morte, tinha sua vida em risco. Nesse sentido, o trabalho visa expor que, quando analisadas em conjunto, as suas atitudes revelam uma agência escrava que não se restringia a pequenas concessões do cotidiano, pois abriu campo para a floração de atos de resistência. Além disso, pretende-se entender como ocorrências semelhantes a essa são absorvidas pelos indivíduos da fazenda, se há impacto no cotidiano e na relação senhor-escravo. As questões propostas por esse trabalho são desenvolvidas por meio da transcrição do processo-crime adquirido no Arquivo Nacional, registrado na Paraíba do Sul em 1870, cujo apelado é Felix, escravizado do Barão de Bemposta. Para embasar as discussões, é usado “Crime e Escravidão: Trabalho, Luta e Resistência nas Lavouras Paulistas (1830-1880)”, de Maria Helena Machado; e “A Economia Política da Violência na Era da Segunda Escravidão: Brasil e Estados Unidos, 1776-1888”, tese de doutorado de Marcelo Ferraro. Em suma, a tentativa de assassinato cometida contra o senhor evidencia as rachaduras desse sistema pautado em controle e submissão. Mais do que um ato isolado de violência, o confronto radical com a dominação senhorial se manifestava como uma resposta de quem, assim como Felix, vislumbrava na eliminação do senhor uma janela de liberdade da escravidão.

Bibliografia

Arquivo Nacional. Código de referência: 84.0.ACR.227, N° 7006, CAIXA 3.695. MACHADO, M. H. Crime e escravidão: Trabalho, Luta e Resistência nas Lavouras Paulistas (1830-1888). São Paulo: EDUSP, 2022. FERRARO, M. A Economia Política da Violência na Era da Segunda Escravidão: Brasil e Estados Unidos, 1776-1888. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo (USP), 2021.

Palavras-chave

Escravidão Vale do Paraíba Agência escrava Resistência escrava
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