Orientador(es): LUDMILA MARIA MOREIRA LIMA
Área temática: CIÊNCIAS SOCIAIS
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: Discente de iniciação científica sem bolsa
Nas últimas décadas, no Brasil e no mundo, observamos o surgimento de uma diversidade de trabalhadores: os chamados flexíveis, desregulamentados, temporários, informais, autônomos, colaboradores e parceiros. Há também os novos ‘empreendedores’: uma ampliada categoria formada pela disseminação de sugestões de que ‘basta querer para vencer’, motivada, por isso mesmo, a lançar-se em projetos e relações laborais em condições desfavoráveis e de sustentação frágil, embora insufladas como ‘promissoras de vantagens e oportunidades de sucesso’. Muitos, por vários fatores, conseguem realizar e manter seus projetos empreendedores. Outros, não. Enfim, todo esse mosaico de trabalhadores vem se multiplicando nos espaços urbanos, sobretudo no setor de serviços que, simultaneamente, fez ampliar o contingente de prestadores freqüentemente submetidos a regimes de trabalho extenuantes, exaustivos e mal remunerados. Essa realidade, extensamente compartilhada, motivou a realização de um estudo de caso que, a partir da análise de algumas trajetórias, buscou aprofundar debates e diálogos teóricos sobre “Racionalidade Neoliberal e (a construção de) Subjetividades”. De início caberiam as indagações: seria a ‘racionalidade neoliberal’ uma espécie de ‘novo espírito do Capitalismo’ que passou a reorganizar a reprodução da vida individual, social, política, econômica e cultural, a partir do final do século XX até os nossos dias? A reconfiguração da acumulação capitalista, operando transformações profundas nas sociedades (das subjetividades às esferas geopolítica, social, econômica, cultural), estaria impondo um novo modo de existência, fruto da determinação obstinada de se criarem condições favoráveis, diversificadas e capilarizadas para a lucratividade e rentabilidade do capital? Estaríamos tratando de um ‘colonialismo’ instaurador de uma ‘nova razão da desigualdade’, ancorada na naturalização de que ‘ser mais livre em um mundo cada vez mais desigual’ compensaria quaisquer adversidades e perda de direitos? Em breve síntese, esta reflexão resulta de um estudo com entregadores de aplicativos com o objetivo principal de pensar sobre como eles elaboram sua relação com o trabalho, considerando as transformações em curso. Para tanto, realizamos pesquisa teórica-documental; observação de campo; entrevistas para a reconstituição de trajetórias e análise dos sentidos atribuídos ao trabalho e à reprodução da vida. O exame do material destacou: no campo empresarial, midiático e governamental proliferam discursos motivadores do empreendedorismo, mérito e empresariamento de si e desacreditam-se lutas coletivas para o enfrentamento da perda de direitos trabalhistas, favorecendo a naturalização da sujeição resignada às novas modalidades de exploração do trabalho. Esses fatores, dentre outros, tendo impactos em camadas diversificadas da experiência subjetiva, individual e social, revelam-se eficazes porque o Capitalismo vem sendo regido por uma racionalidade normativa global produtora de um regime de supostas verdades destinadas a modelar governantes e governados, sociedades, indivíduos, suas percepções e subjetividades.
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018. DARDOT, Pierre & LAVAL, Christian. A Nova razão do Mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal: como o nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso. São Paulo: Autonomia literária. 2024.