Orientador(es): ECIO ELVIS PISETTA
Área temática: FILOSOFIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO ORAL
Bolsa: PIBIC
A Revolução Científica do século XVII e o advento do capitalismo industrial no final do século XVIII provocaram uma série de transformações, refletidas em vários aspectos das relações humanas, visão de mundo, percepção do tempo e regime de atenção, como se a compreensão mecanicista do mundo se impusesse aos processos humanos, biológicos e comportamentais, abrangendo todas as dimensões da vida. De acordo com Heidegger, o homem, uma vez lançado no mundo, teria sido impelido a responder a seus desafios, criando um mundo artificial, técnico, e se criando nessa lida. Inclinando-se ao questionamento da técnica, especificamente da técnica moderna, o autor teria buscado construir um caminho de liberdade na lida com ela, afirmando que o que estaria em jogo seria a compreensão da sua essência, que encoberta a antecede e anima, dirigindo e moldando comportamentos e ações. Nesse contexto, o presente trabalho visa compreender a contemporaneidade tecnológica a partir das respostas humanas ao apelo da ge-stell, a essência da técnica moderna de acordo com o pensamento heideggeriano, e como esse envio afeta e transforma o modo humano de ser, perceber e se relacionar no e com o mundo e com os outros. Neste intuito, a metodologia do trabalho consistiu na leitura e fichamento de textos da autoria não só do filósofo em questão, mas também de comentadores e autores implicados nessa temática. A partir dos textos analisados, é possível perceber que o des-encobrir grego, a téchne, tendia a uma imitação da physis, do impulso originário da natureza de desvelar e velar, fazer viger o que ainda não vige, apresentando-se como uma produção orientada por um saber prático, buscando lidar com e produzir coisas no mundo. No entanto, Heidegger evidencia que a técnica moderna aparece como um des-encobrimento diferente, não mais uma pro-dução ou um propor, mas um dispor, impor, assumindo uma outra posição, a exploração da natureza encarada como recurso, energia a ser processada, distribuída e armazenada. Nesse sentido, o poder da técnica configuraria uma nova visão do mundo, unidimensional e redutora, transformando o pensamento em cálculo e todas as coisas em recurso, disponibilidade. Em que pesem as transformações dos artefatos tecnológicos, mutações das dinâmicas de poder e as diferentes perspectivas filosóficas, é possível pensar na ge-stell como a essência que preside e reúne a tecnologia contemporânea, incluindo as redes digitais e a tecnociência. A ambiguidade da essência da técnica, sua potência de perigo e salvação, permanece como uma questão fundamental, talvez a questão do nosso tempo. A partir de 1935, Heidegger teria se dedicado a refletir sobre a proximidade entre poesia e pensamento, formulando a questão da abertura do ser do ente pela arte como um caminho possível de aproximação com uma verdade mais originária, já que a arte também é uma téchne. A investigação acerca dessa relação constitui o objeto do futuro trabalho de iniciação científica.
DUBOIS, Christian. Heidegger: Introdução a uma leitura. Tradução Bernardo Barros Coelho de Oliveira. Rio de janeiro: Jorge Zahar ed., 2004. HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2012. HEIDEGGER, M. Serenidade. Tradução de Maria Madalena Andrade e Olga Santos. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.