Orientador(es): VANDERLEI VAZELESK RIBEIRO
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
De que maneira as mulheres camponesas, embora essenciais para a economia rural e familiar, foram sistematicamente marginalizadas pelas políticas da Reforma Agrária no Chile, e como, apesar dessa exclusão, elas construíram suas próprias formas de identidade e resistência? Este trabalho parte do contexto da lacuna historiográfica sobre a experiência feminina no processo de Reforma e Contrarreforma Agrária no Chile (1967-1985), onde a mulher rural é frequentemente silenciada ou tratada como um apêndice da figura masculina. O objetivo principal é romper com essa invisibilidade histórica, analisando criticamente a subjetividade, os modos de inserção e as estratégias de resistência das mulheres camponesas. A proposta busca compreender a história não apenas por estruturas econômicas, mas pelas lentes da experiência de gênero, da construção identitária e das lutas cotidianas. A metodologia consiste em uma análise crítica da monografia de Diego Cortés Zagal, articulada a uma abordagem interseccional que utiliza os referenciais teóricos de Benedict Anderson, para a compreensão da identidade nacional, e de Heidi Tinsman, para a valorização da memória oral e da experiência de gênero. Através dessa lente, examina-se como a classe, o gênero e a identidade territorial operaram conjuntamente na marginalização e na agência dessas mulheres. Os resultados demonstram que, apesar das promessas de justiça social, a Reforma Agrária reforçou a hierarquia patriarcal ao excluir as mulheres da titularidade da terra e do reconhecimento de seu trabalho produtivo. Contudo, elas não foram sujeitas passivas. Desenvolveram formas de resistência silenciosa, organizaram redes de apoio e, em espaços como os Centros de Mães (CEMAS), construíram noções próprias de cidadania e pertencimento. A análise revela que, mesmo sob o controle moral e a repressão da contrarreforma, as mulheres foram pilares na manutenção e reconstrução do tecido social. Conclui-se que o estudo da mulher campesina chilena permite repensar categorias analíticas como classe, cidadania e trabalho, incorporando gênero e identidade como dimensões fundamentais. Ouvir suas vozes e reconhecer suas práticas significa não apenas corrigir lacunas da historiografia, mas propor uma história mais inclusiva e descolonizada. Este trabalho reforça a necessidade de futuros estudos que deem continuidade à valorização das experiências femininas no campo, consolidando uma perspectiva historiográfica sensível às múltiplas formas de resistência e protagonismo das mulheres.
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. CORTÉS ZAGAL, Diego. Reforma y contrarreforma agraria en Chile central (1967- 1985): La mujer campesina. Santiago: LOM Ediciones, 2003. TINSMAN, Heidi. La tierra para el que la trabaja: género, sexualidad y política en la reforma agraria chilena. Santiago: LOM Ediciones, 2002