Orientador(es): KELVIN DOS SANTOS FALCÃO KLEIN
Área temática: LETRAS
Modalidade de apresentação: SESSÃO ORAL
Bolsa: PIBIC
Entre os séculos. 18 e 19 no Ocidente, ocorreram mudanças sociais, filosóficas, econômicas que moldaram o pensamento. Na filosofia, o racionalismo cientificista acredita-se na superioridade da ciência frente a outras formas de compreensão do mundo e dos seres viventes. Esse pensamento marginaliza seres não humanos, pois sendo a razão o elemento hipervalorizado, os animais são vistos como meros recursos para o bem-estar humano. Para esta pesquisa, considerando o período em que os seres humanos quiserem propositalmente se distinguir dos outros viventes, é notório que esse fato é encontrado nas literaturas, onde a metamorfose entre humano e animal é passível de acontecer. É interessante analisar como as obras tratam as metamorfoses de humano para animal; e animal para humano. Objetivo: Analisar as distintas descrições de personagens metamorfoseados humanos e animais nas literaturas dos séculos. 19 e 20 no Ocidente. Para isso, selecionadas as obras Conto Alexandrino, de Machado de Assis; e Um relatório para uma Academia, de Franz Kafka, foram vistas as transformações de personagens humanos em animais ou em condições animalizadas, e de personagens animais em humanos ou em condições humanizadas. A pesquisa tem como finalidade evidenciar como essas diferenças de percepção e tratamento dos personagens estão relacionadas a uma estrutura social antropocêntrica que privilegia a centralidade humana e sua razão em detrimento da existência de seres não humanos. Metodologia: Leitura e investigação crítica das obras dos autores relacionados. Levantamento bibliográfico de obras críticas em torno da temática e produção de fichamento. Em Um relatório para uma Academia, o personagem escreve contando sobre sua passagem de macaco para ex-macaco. Descreve ser salvo pelos humanos, deixando sua animalidade. Em um processo de aculturação, o faz renegar seus instintos originais, acreditando que a condição humana é superior à condição animal. Um aspecto a ser notado é o conceito de nudez. A animalidade, na perspectiva antropocêntrica, se presentifica no momento em que não há pudor em estar nu. Os animais não estão nus, uma vez que não possuem essa concepção. O macaco do conto precisa se vestir para assim humanizar-se. Com isso, percebe-se que o personagem ganha consciência da nudez. Em Conto Alexandrino, cientistas, que utilizam ratos em seus experimentos, cometem um crime e são presos. Agora na condição de prisioneiros, se tornam cobaias. Ao mesmo tempo em que são desumanizados, eles são proporcionalmente animalizados, porque a posição de prisioneiros os coloca em um rebaixamento da condição humana e equiparação aos animais. Assim, é legitimada a experimentação científica com eles. É uma visão que reforça a centralidade e pretensa importância humana em relação a tudo que a cerca. Conclusão: Em um contexto ocidental, regido pela centralidade humana e sua racionalidade, há uma oposição marcada entre humanos versus animais. A consequência disso é a inundação na literatura, em um período determinado na história, em que ser animal é visto como algo degradante, distante da racionalidade que é tanto valorizada. Enquanto tornar-se humano está associada a progressão, benevolência e inteligência.
ASSIS, Machado de. (1883). “Conto alexandrino” in Histórias sem data. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A./Brasília: INL, 1975. (Edições Críticas de Obras de Machado de Assis, v. 5). BERGER, John. (2009). Por que olhar os animais? Tradução de Pedro Paulo Pimenta. – São Paulo: Fósforo, 2021. KAFKA, Franz. (1919). Um médico rural. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.