ENFERMAGEM PROFISSIONAL, UMA ATIVIDADE PARA MULHERES?

ALINE FERREIRA DE BARROS

Apresentador(es): ALINE FERREIRA DE BARROS

Orientador(es): OSNIR CLAUDIANO DA SILVA JUNIOR


Área temática: ENFERMAGEM

Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER

Bolsa: IC/UNIRIO


Resumo

Ao longo do século XIX, o processo de profissionalização da enfermagem, impulsionado por Florence Nightingale, resultou, no Brasil, na criação da Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras em 1890, atual Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da UNIRIO. Este contexto histórico favoreceu a inserção massiva das mulheres no mercado de trabalho formal, sendo a enfermagem uma das profissões de nível superior mais acessíveis a elas, ao lado do magistério. A profissão foi construída sobre uma rígida divisão sexual do trabalho, associando atributos socialmente considerados femininos, como o cuidado e a dedicação, à prática profissional. Por isso, o trabalho motiva-se pela necessidade de compreender como a associação histórica entre a enfermagem e o gênero feminino fundamentou-se em estereótipos que impactam a valorização social e económica da profissão até os dias atuais. O objetivo deste trabalho é compreender as possibilidades de inserção da mulher no mercado de trabalho na primeira metade do século XX no Brasil, com ênfase na enfermagem profissional, relacionando-a a outras ocupações historicamente feminizadas e analisando os reflexos da divisão de gênero na estruturação da carreira. A metodologia consistiu em uma pesquisa de natureza histórico-social, baseada na análise documental de fontes secundárias, como orçamentos públicos, regulamentos e literatura da época, utilizando a categoria de gênero na perspectiva teórica de Michelle Perrot para analisar a construção social da profissão. Os resultados mostram que a enfermagem surgiu como uma via privilegiada de profissionalização feminina, porém dentro de um quadro de desigualdades salariais e hierárquicas que refletiam os valores patriarcais da sociedade. A análise de documentos orçamentários federais da década de 1920, como os do Hospital Nacional dos Alienados, evidencia que as enfermeiras eram agrupadas com ocupações auxiliares e não com outras profissões de saúde de nível superior (como médicos ou farmacêuticos), indicando um status profissional distinto e menos valorizado, com salários que podiam chegar a ser seis vezes menores que os de um médico. A regulamentação do Serviço de Enfermagem em 1935, embora tenha organizado a carreira, também institucionalizou disparidades salariais internas, o salário da enfermeira adjunta era metade ao da secretária demonstrando a clara desvalorização do trabalho técnico de cuidado. No Instituto Benjamin Constant, o salário do professor primário era 7 vezes o da enfermeira, considerada como subinspetora de alunos. Conclui-se que a profissionalização da enfermagem no Brasil foi um processo ambíguo: por um lado, representou uma conquista e um espaço de autonomia para as mulheres no campo da saúde e do trabalho formal; por outro, se consolidou com base em estereótipos de gênero que naturalizaram a associação entre mulheres e cuidado, contribuindo para a perpetuação de desigualdades que ecoam até os dias atuais na valorização social e econômica da profissão.

Bibliografia

BRASIL. Lei nº 118, de 18 de novembro de 1935. Organiza o Serviço de Enfermagem da Directoria Nacional de Saude e Assistencia Medico Social. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 26 nov. 1935, p. 25778. BRASIL. Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Proposta de Orçamento para o ano de 1919. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1918. p. 50. Disponível em: http://memoria.org.br/pub/meb000000399/00057/00057024.pdf. Acesso em: 10/06/2025 PERROT, Michelle, Mulheres públicas. São Paulo: UNESP, 1998.

Palavras-chave

Enfermagem; Gênero; Mercado de trabalho; História da enfermagem;
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