Orientador(es): ANDERSON JOSE MACHADO DE OLIVEIRA
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
A formação da sociedade colonial brasileira foi marcada por valores do Antigo Regime, baseados na hierarquia estamental, adaptada às realidades locais. Esse modelo legitimou desigualdades, mas também abriu espaço para novos agentes sociais. A escravidão estruturou essa hierarquia e condicionou as dinâmicas de mobilidade social, geralmente restrita. O status individual estava atrelado à condição (livre, liberto ou escravo) e ao grupo familiar, sendo ainda mais difícil para pessoas de cor, que precisavam enfrentar o estigma racial. Como agentes históricos, esses indivíduos buscavam superar tais barreiras investindo em estabilidade familiar, reputação e redes locais, estratégias que lhes permitiam distanciar-se do cativeiro e ascender socialmente. Este trabalho analisa estratégias de ascensão social de livres de cor no período colonial por meio da carreira sacerdotal. Foram examinados dois processos de Habilitação Sacerdotal no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro: o do padre Gabriel Gomes (1700) e o de seu sobrinho-neto Manoel Domingues Monteiro (1756). A documentação revela origens familiares, costumes e redes de apoio, permitindo observar como esses aspirantes a clérigos negociaram identidades para superar o “defeito de cor” e alcançar as ordens. O caso de Manoel evidencia tais tensões. Apesar de descendente de homens brancos e capitães-mores, sua trajetória foi questionada pela ascendência materna, que envolvia mulheres pardas. Seu processo mostra a importância das qualidades familiares mobilizadas para obter a “dispensa do mulatismo”. Já Gabriel Gomes, seu tio-avô, ao se ordenar em 1700, acionou estratégias semelhantes: prestígio do pai e do avô, reputação local e vínculos sociais. Ainda que houvesse menções a antepassadas de cor, a habilitação representou um movimento de elevação do grupo familiar. Assim, a carreira eclesiástica aparece como caminho privilegiado para a ascensão de livres de cor. A análise evidencia que suas escolhas não eram casuais, mas parte de estratégias coletivas para consolidar status social. O cruzamento das trajetórias mostra que Gabriel representa o início do processo ascendente, enquanto Manoel simboliza sua manutenção, confirmando o êxito das estratégias familiares. Os processos de habilitação sacerdotal revelam-se, portanto, como espaços de negociação de identidades, nos quais reputação, redes de parentesco e cargos prestigiosos podiam se sobrepor ao estigma da cor. As histórias de Gabriel e Manoel demonstram que, mesmo em uma sociedade rigidamente hierárquica, indivíduos de cor encontraram brechas para alcançar posições de privilégio, utilizando a instituição eclesiástica como via de legitimação.
FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. GUEDES, Roberto. Egressos do cativeiro: trabalho, família, aliança e mobilidade social (Porto Feliz, São Paulo, c.1798-c.1850). Rio de Janeiro: Mauad/FAPERJ, 2008. MACHADO, Anderson José de Oliveira. Estratégias e mobilidade social: o acesso de descendentes de escravos e