Orientador(es): MIRIAM CABRAL COSER
Área temática: HISTÓRIA
Modalidade de apresentação: SESSÃO DE PÔSTER
Bolsa: IC/UNIRIO
No Império Bizantino, a divisão da população entre as facções Azul e Verde esteve associada às corridas de bigas no hipódromo, um dos principais espaços de sociabilidade e política da capital. A Revolta de Nika (532) exemplifica a força destas facções: iniciada como motim contra a execução de membros das facções, transformou-se em grande insurreição popular que uniu temporariamente Azuis e Verdes contra o imperador Justiniano (527-565). As dimensões da revolta exigia uma atitude de Justiniano que se recusou a conceder o perdão e resultou em repressão sangrenta, com mais de trinta mil mortos e a reafirmação do poder imperial. Segundo o relato de Procópio de Cesareia, no século VI, a intercessão da imperatriz Teodora teria sido fundamental para a decisão do imperador, que teria pensado em fugir de Constantinopla. Desde o século I, as facções haviam surgido como associações desportivas responsáveis pela organização de corridas, mas entre os séculos IV e V adquiriram caráter violento, tornando-se milícias urbanas diante das ameaças externas, servindo como instrumentos de defesa, pressão social e mobilização coletiva. Os domini factionum, financiadores privados das equipes, possuíam posição reconhecida pelo aparato estatal, administravam estábulos e corredores e articulavam-se diretamente com o palácio. Essa função lhes conferia influência política informal, revelando que o espetáculo era também arena de poder. O hipódromo, concebido como elemento central de Constantinopla, simbolizava a herança romana e a capacidade de integração social e política da cidade. As cores e símbolos das facções extrapolavam o âmbito esportivo, associados a elementos da natureza e a interpretações religiosas. A composição social desses grupos foi mais heterogênea do que supunham análises tradicionais que identificavam os Azuis como aristocratas e clientes, e os Verdes como comerciantes prósperos e camadas populares. Assim, não se pode reduzi-los a expressões simplistas de classes sociais em conflito. Do mesmo modo, a identificação dos Azuis com a ortodoxia bizantina e dos Verdes com o monofisismo é relativizada pela historiografia recente, pois ambas as facções continham seguidores de diferentes credos. O apoio imperial às facções tampouco seguiu padrão fixo, evidenciando que a rivalidade religiosa não foi fator determinante. A participação feminina, embora pouco documentada, esteve presente no espaço simbólico do hipódromo e nas arquibancadas, com destaque para a figura da imperatriz Teodora, cuja trajetória relaciona espetáculo, religiosidade e política. Em síntese, as facções transcenderam o entretenimento esportivo, transformando-se em atores centrais da vida bizantina, capazes de influenciar decisões imperiais, expressar tensões sociais e intervir em disputas religiosas. A análise de sua trajetória demonstra a complexidade da vida urbana de Constantinopla, marcada pela interconexão entre esporte, espetáculo e poder, com inegável participação feminina.
ANGOLD, Michel. Bizâncio: a ponte da Antiguidade para a Idade Média. Rio de Janeiro: Imago, 2002. CRUZ, Marcus. O poder das mulheres e a construção da memória na Antiguidade Tardia: O caso de Teodora e Clotilde. Disponível em: http://www.nehmaat.uff.br/revista/2014-2/artigo01-2014-2.pdf. Acesso em: 12 out. 2023. PROCÓPIO DE CESAREIA. História das Guerras, I, XXIV. Tradução de H.B. Dewing. Nova York: Macmillan, 1914. p. 219-230. Levemente abreviado e reimpresso em: BARNARD, Leon; HODGES, Theodore B. Leituras de História Europeia. Nova York: Macmillan, 1958. p. 52-55. Disponível em: https://sourcebooks.fordham.edu/source/procop-wars1.asp. Acesso em: 16 nov. 2023.